"Nesse universo provisório, nossos axiomas só têm um valor de notícias do dia." (Emil Cioran)
quinta-feira, 30 de abril de 2020
quinta-feira, 19 de dezembro de 2019
XXX
15/07/2019
A
única conclusão legítima é a de que é ilegítimo chegar a
qualquer conclusão sobre qualquer assunto.
08/11/2019
A
condição aporética e
insustentável da humanidade independe da existência ou não de um
além, de um “mundo espiritual”. Ou, como parece ser o caso, esse
mundo espiritual não existe, e todas as supostas provas da
existência dele são falsas, ou, se ele existir, ele está submetido
às mesmas aporias que aprisionam a condição humana, e portanto não
tem condições de salvá-la de si mesma (pois só uma força exógena e livre dessas aporias poderia evitar que a humanidade acabe por se autodestruir). Portanto,
tanto faz se existe um mundo espiritual ou não.
*
O
próprio conceito de “desenvolvimento sustentável”, quando
colocado, como o é, pelos políticos como uma meta a ser alcançada,
já é uma admissão de que vivemos um “desenvolvimento
insustentável”. Já é admissão, portanto, que a civilização
atual ruma para a sua autodestruição.
*
Ao
observar os conflitos de narrativas, notamos que o problema (o qual
impede um real entendimento entre as pessoas), está na pressa com
que as pessoas chegam a conclusões e na convicção com que se
agarram a elas. Leia aquele meu primeiro texto filosófico, lá no
Ensino Médio, e você verá que eu já falava isso lá, com outras
palavras. [NOTA: revirei a casa procurando o texto e não o achei; se
um dia ele aparecer, coloco-o aqui no Diário de um Outsider.] Para
que as pessoas conseguissem chegar a acordos ontológicos
(conseguissem construir narrativas comuns, que ultrapassassem as
comunidades interpretativas) para além da mediocridade do senso
comum, seria necessário que elas admitissem sua ignorância e que se
dispusessem a realizar longos e profundos estudos, para daí então
opinar e, depois, agir. Mas a pressão dos acontecimentos e a luta
pelo poder, além da preguiça e da vaidade, empurram as pessoas para
concluir rápido e para se agarrar a conclusões peremptórias. Num
mundo onde os acontecimentos são cada vez mais rápidos e onde o
volume de informações é cada vez maior, não há esperança, salvo
pelo uso em massa de tecnologias transhumanas (o que eu não acredito
que vá ocorrer, e se o fosse não seria para essa finalidade), de
que a qualidade dos conflitos de narrativas possa melhorar, ao
contrário, a tendência é piorar ainda mais.
18/12/2019
Mais
do mesmo
Quando
Cioran (em “O cenário do saber”, entre outros textos) e eu mesmo
falamos que existem as crenças mais diversas e esdrúxulas nas
mentes humanas, estamos meramente constatando um fato social. O fato
dessa diversidade existir não significa que, do ponto de vista
epistemológico, todas essas crenças são equivalentes, são
intercambiáveis, não significa que não há uma metodologia capaz
de hierarquizá-las em termos de qualidade epistemológica e maior
probabilidade de verdade. Reconhecer que o método científico é
epistemologicamente superior não é equivalente a acreditar na
Virgem Maria ou a acreditar que um sonho lúcido que se teve é uma
“memória de uma vida passada” só porque se “sente” que isso
é verdade (ou seja, simplesmente porque se quer acreditar nisso).
Tá
bom que Cioran diz que “quando se recusa a reconhecer o caráter
intercambiável das ideias, o sangue corre”. Mas isso é uma
questão ética, deontológica, não ontológica e epistemológica. E
meu foco é na epistemologia e da ontologia – sou um fanático pela
busca da verdade. (E, também, dane-se Cioran, ele não era coerente
nem com ele mesmo, não sou eu que vou querer ser coerente com ele.
Tenho meu próprio caminho, no qual Cioran é importante, mas não me
submeto cegamente a ele nem a ninguém.)
Nessa
minha busca, é totalmente vão querer instruir as pessoas, tentar
fazê-las entender que o método científico tem uma superioridade
epistemológica frente às demais formas de conhecimento. É inútil,
há mesmo gente com mestrado e doutorado que não reconhece isso –
e não porque de fato estudaram a questão e questionaram o método
científico, mas simplesmente porque não pensaram no assunto, porque
sequer se importam com isso, porque não compartilham comigo da
monomania epistemológica e ontológica. Quase ninguém se importa
com isso. Em geral, as pessoas simplesmente se agarram às suas
convicções, sejam elas simplórias ou enredadas em intrincados e
verborrágicos discursos intelectuais. Praticamente ninguém tenta
partir da dúvida e se esforça para buscar o método mais válido
epistemologicamente para daí, então, buscar usar ele o máximo
possível em suas invectivas. E não que não existam críticas ao
método científico – existir existe crítica a tudo dos mais
variados pontos de vista. Mas se alguém critica a ciência com base
numa convicção religiosa, não tenho dúvidas de quem é que está
sendo vítima do viés cognitivo mais egoico e mais vil, se a pessoa
por preferir a religião dela ou se eu por preferir o método
científico.
Não
adianta achar que a “verdade objetiva” é a verdade na qual a
maioria das pessoas acredita, é a verdade reconhecida pela maioria
das pessoas, é o senso comum. Não é, porque a imensa maioria das
pessoas está simplesmente presa em suas (inter)subjetividades (e
cada vez mais nesta hipermodernidade na qual estamos afundando). A
verdade objetiva é a verdade revelada por um método específico, e
não por uma assembleia onde ganha a maioria ou os que fazem mais
barulho. Mesmo os que reconhecem a superioridade epistemológica do
método científico são quase todos também idólatras e fanáticos
(neoateus, por exemplo), e não pessoas que conseguem reconhecer as
limitações do método científico e mesmo o papel destrutivo da
ciência (a humanidade não estaria à beira da extinção se não
fosse pela ciência – o que não significa que a ciência não seja
o melhor caminho para tocarmos o Real, para nos aproximarmos da
Verdade; praticamente NINGUÉM é capaz de entender e aceitar essa
aporia).
Não
cabe a mim tentar convencer ninguém da razoabilidade e da
superioridade epistemológica da ciência (em simultaneidade com suas
limitações e com seu poder destrutivo que está nos matando – e é
ele que está nos matando, não adianta vir com o papo de que a
ciência é neutra, ela não é, ela constrói sua
verdade (a melhor verdade possível, epistemologicamente falando) por
meio da destruição do seu objeto, do esquartejamento; a ciência
não casou tão bem com o capitalismo por acaso, mas sim porque ambos
compartilham o mesmo pecado original Moderno de instrumentalizar
tudo, de reificar tudo como mero recurso a ser explorado). Quando
mesmo mestres e doutores não são capazes de entender isso, já está
mais do que claro que esse seria um trabalho de tentativa de
instrução totalmente contraproducente. Não que não deve haver
autores acadêmicos que entendam e que falem isso (com termos mais
rebuscados e um texto melhor referenciado), mas suas vozes se perdem
na cacofonia da academia. Se eu me especializasse no estudo acadêmico
da epistemologia, provavelmente chegaria aos rincões onde eles estão
escondidos. Mas nesse mundo cão, priorizar isso seria pedir para
virar mendigo.
Estamos
todos sós, cada um a sua maneira. Essa minha posição (que
reconhece simultaneamente o que há de pior e de melhor no método
científico) é raríssima, ainda mais para pessoas fora da
comunidade interpretativa dos
epistemólogos. Não conheço ninguém que pense assim, que balize
seus juízos ontológicos
e epistemológicos por isso. Talvez o Guy McPherson e alguns lá na
subcultura da NTHE (Near Term Human Extinction), embora não tenha
visto ninguém falar isso especifica e explicitamente. Deve existir
uma meia dúzia de pessoas que concordem comigo. Mas é inútil
procurá-las, e mais inútil ainda tentar criá-las. O que me resta é
seguir meu caminho sozinho e submetido às amplas restrições que
oprimem minhas ambições (ser um mero trabalhador do terceiro mundo,
etc.), para ver no que ele vai dar, e, então, guardar o resultado
para a única pessoa que vai se interessar – eu mesmo.
19/12/2019
Há
instantes nos quais queremos depor as armas e escavar nossa tumba ao
lado da de Deus. Ou senão, reviver petrificados a desesperança do
asceta que descobre ao final de sua vida a inutilidade da
renúncia. (Cioran, Lágrimas e Santos)
Desde
o dealbar da exaptação negativa da lucidez os humanos buscam a
salvação. Dezenas (talvez centenas) de milhares de seitas,
religiões, doutrinas, escolas, ideologias,
movimentos, empreendimentos, etc. Tudo em vão. Milhões de santos,
profetas, líderes prescrutando o Oculto, o Além e o Futuro em busca
da redenção. Todos fracassaram. Não há saída para lugar algum.
Mas vão desistir os humanos de procurá-la? É claro que não vão.
Enquanto houver as condições físicas no planeta para o fenômeno
humano existir (e talvez já não haja em poucas décadas...), a
tragicomédia vai continuar. Isso é bom ou ruim? Tanto faz os
julgamentos morais que cada pessoa pode elaborar e propagar, pois
esse desdobramento autopoiético,
essa reação em cadeia, esse mero automatismo da matéria, vai
continuar tautologicamente até o esgotamento tautológico das
condições físicas que o fundamentam.
XXIX
(19/12/2019
O
próximo capítulo tem anotações que começam em 15/07/2019. Quase
um ano sem anotar nada, é isso mesmo? Aparentemente, sim. Procurei
anotações e não achei. Aparentemente, eu estava ocupado com outros
projetos internéticos, que não convém mencionar aqui... E espero
não voltar a ficar fazendo anotações constantemente, mesmo porque
eu praticamente só fico me repetindo, falando as mesmas coisas com
outras palavras...)
XXVIII
28/09/2017
Existem
sistemas de organização social menos ruins do que
outros – no sentido de que esses menos ruins conseguem realizar uma
gestão mais efetiva, salutar, do material humano e de sua interação
com a natureza. Mas todas as formas de organização social são
essencialmente ruins e fracassadas, pelo simples motivo de que estão
lidando com algo essencialmente ruim e fracassado: o ser humano em
particular e a vida em geral. Alguns utopistas, portanto,
estão parcialmente certos: seus esforços de
melhoria da condição humana até geram algum resultado apreciável
– mas efêmero e muito aquém do que é o prometido (a saber, uma
cura para a condição humana). Será que os utopistas se dariam aos
esforços que se dão se acreditassem que os frutos de suas
atividades são meros paliativos diante de uma condição humana
constitutivamente incurável? Da minha parte, decido solenemente
ignorar essas discussões políticas, ideológicas, ontológicas,
deontológicas, e decido focar no meu bem-estar – niilismo
eudemonista.
30/04/2018
2008:
as coisas começaram a mais piorar do que melhorar no mundo.
2013:
as coisas começaram a mais piorar do que melhorar no Brasil.
2015:
começou a ficar inviável para mim imaginar a minha vida melhorando
(como cenário de futuro, a sexta extinção substituiu a
singularidade tecnológica).
2018:
pós reforma trabalhista, a minha vida começou a piorar de fato com
o fim (em setembro) do Acordo Coletivo de Trabalho assinado em 2016.
[Escrito
em 19/12/19: no segundo semestre de 2020 vai vencer o atual ACT, e
agora a perspectiva é a cada ACT as coisas ficarem piores.]
22/05/2018
As
pessoas que alegam estar buscando o “sentido da vida” (ou mesmo o
“autoconhecimento”) em geral são pessoas que subjetivamente já
se comprometeram com o “Sim” (com a afirmação do querer-viver,
com a agência da autopoiese), mas que ainda não arranjaram uma
metanarrativa que seja-lhes suficiente – ou seja, que consiga de
forma satisfatória abafar-lhes o mal estar fruto da exaptação
negativa da lucidez. Enquanto ardil dos instintos de autopreservação
para burlar a exaptação negativa da lucidez, o mais importante
nessas buscas não é o resultado final, mas a trajetória – a
busca, a espera(nça) que mantém a pessoa agarrada à vida enquanto
acredita que superará a exaptação negativa de lucidez: é o velho
esquema da “cenoura do cavalo”, do objeto a que mantém o
movimento de adesão por meio da promessa da satisfação. Mesmo que
essa busca se apresente travestida de “expansão da consciência”
ela é na verdade um esforço em fugir da exaptação negativa da
lucidez (a qual existe justamente devido a um excesso de consciência
em relação à animalidade desprovida de metacognição).
Para
mim, que desde antes de conhecer Schopenhauer já estava seduzido
pelo “Não” (e que na melhor nas hipóteses consigo chegar a uma
indiferença entre o "Sim" e o "Não"), essa
busca de “sentido para a vida” nunca fez... sentido.
*
Se
o mundo não está nem aí para mim, porque eu tenho que me importar
com ele? De onde sai o imperativo, Nietzsche? Se eu sou uma mera
engrenagem em uma máquina omnicida, por que ainda por cima tenho que
me sentir grato? Não que eu seja contra quem se sente grato – cada
um que faça com sua vida o que quiser... Mas eu não quero
agradecer, pouco importa qual seja a chantagem emocional que inventem
os que não toleram a existência de gente como eu.
13/06/2018
O
pensamento desejante não necessariamente atrapalha o conhecimento.
Aliás, em algumas situações pode ajudá-lo: nessas situações, é
graças a ele que a pessoa nota detalhes e foca a atenção em pontos
que as outras pessoas não notam ou não dão a devida atenção. Às
vezes é uma forçada “razoabilidade” ou “imparcialidade” que
acaba gerando um viés cognitivo, e não o pensamento desejante (essa
forçação não deixa também ela de ter uma origem volitiva, num
bom-mocismo ingênuo). Epistemologicamente, isso apenas complica
ainda mais as coisas...
24/06/2018
Vendo
"Voyage of time".
Quando
a mente foca em grandes escalas no tempo e no espaço, há a sensação
de sublime, cujo prazer é fruto do esquecimento de si e de seus
sofrimentos. Esse prazer, associado ao pensamento mágico/animista,
gera uma ilusão cognitiva de "intuição" da "alma"
do mundo e/ou do suposto Ser que o criou. Mas não há Ser ou "alma"
alguma, apenas o desdobramento incessante da atividade das forças
físicas e um sistema nervoso limitado que os observa (e que não
evoluiu para essa observação, portanto não está apto a isso).
07/07/2018
Não
acredito que a humanidade dure mais cem anos. E mesmo que acreditasse
que ela pode durar mais alguns milênios, não acredito que irá
progredir (no sentido de solucionar os paradoxos que a animam pelo
menos desde o início da civilização). E mesmo que, como os
tranhumanistas e outros utopistas, acreditasse que ela está
predestinada à grandeza (e mesmo à divindade), por que deveria
sacrificar meu bem estar imediato em nome de um futuro do qual não
usufruirei?
05/09/2018
A
essa altura da História (a altura da sua agonia derradeira) todas as
causas são causas perdidas – exceto a causa da aceleração da
vindoura catástrofe final.
sábado, 23 de setembro de 2017
XXVII
10/09/2017
Eu consigo detectar a vontade
de potência em ação até em uma coelha (de estimação de um amigo) – fêmea,
vegana, sem metacognição e livre de quaisquer ideologias...
11/09/2017
Tem gente que tem certeza que
existe Deus; tem gente que tem certeza que não existe. Tem gente que tem
certeza que há “vida após a morte”; tem gente que tem certeza que não há. Tem
gente que tem certeza que o ser humano é, em essência, moralmente bom; tem
gente que tem certeza do exato oposto. Etcétera. Convicções não possuem valor
epistemológico.
12/09/2017
Por mais disparatadas que
sejam as ontologias das pessoas, a maioria delas é compatível com um
funcionamento minimamente razoável dentro da sociedade: podem diferir muito na
teoria, mas na prática atendem razoavelmente ao mesmo fim: propiciar a adesão à
autopoiese (da vida e, junto com ela, da sociedade com seus respectivos poderes
estabelecidos).
*
13/09/2017
Morreremos todos sozinhos – e
iludidos.
*
O método científico até
consegue se aproximar do Real – mas ao preço de destruí-lo, esquartejá-lo para analisá-lo objetivamente. Não é por acaso que a ciência casa tão bem com o
capitalismo e que, juntos, promovem a maior devastação que já houve na história
da vida nesse planeta. Mas os idólatras da ciência (dentro dos quais estão
quase todos os “neoateus” e quase todos os divulgadores científicos) se recusam
a ver isso, dizem que a ciência é neutra e nada tem a ver com o uso que os
humanos fazem com suas descobertas...
14/09/2017
Na minha ontologia, suicídio é afirmação ou negação da
vida?
Schopenhauer diz que é
afirmação, Cioran diz que é negação. E eu, digo o quê? Para mim o suicídio é
fruto dos mecanismos psíquicos que buscam fugir do sofrimento. Dá para dizer
que ele é negação do sofrimento. Mas se é negação ou afirmação da vida, isso
depende do mapeamento cognitivo da pessoa que se mata (ou cogita se matar): se
o mapeamento diz que não há nada após a morte, então é negação; se diz que a
vida continua, mudando só o locus ocupado
pela consciência da pessoa, então é afirmação. O mecanismo biológico que busca reduzir
o sofrimento é cego, não possui uma gnose, não sabe o que tem do outro lado –
esse conhecimento (essa crença) é terreno do mapeamento cognitivo.
Talvez a espiritualidade pós-moderna
esteja contribuindo mais para o aumento dos suicídios do que o usualmente
vilanizado ateísmo/niilismo/ceticismo/materialismo: não porque seja a rigor
mais danosa nesse quesito, mais por ser mais popular mesmo. Ocorre que nessa
espiritualidade cada um inventa a neurose que lhe convém (se afastando das
neuroses (religiões) dominantes), embora em geral o faça, por questão de
economicidade (e de falta de criatividade), por meio de um pastiche das
doutrinas populares, quer religiosas, quer filosóficas, quer esotéricas, quer de
autoajuda, etc. Ao afastar-se da coerção de uma doutrina já pronta e
estabelecida/defendida por uma instituição, a pessoa acaba forjando uma
espiritualidade cujo objetivo central termina sendo o de legitimar as escolhas
que ela faz – inclusive, se for o caso, a escolha de se matar. O Deus
particular da pessoa acaba fazendo um papel de superego invertido, ou, mais
exatamente, um pseudosuperego, que é na verdade o ego fingindo para si mesmo ser
um superego. Enquanto no caso da neurose universal/institucional há uma coerção
para que a pessoa não se mate, na neurose particular a espiritualidade acaba
por validar até a decisão de terminar com a própria vida: não é a falta de fé
que mata nesse caso, mas a recusa em se submeter à repressão de uma religião
organizada.
15/09/2017
Se o mundo depende do meu
esforço para ser salvo, então ele já está condenado. Não movo um único átomo em prol de um mundo
melhor.
*
Cada fez fica mais
perceptível para mim como cada um de nós vive preso em uma realidade particular construída em nossa própria cabeça. Essa percepção já aparecia nos primeiros capítulos do Outsider à beira do abismo, e foi se fortalecendo através dos anos,
até se estabelecer em definitivo quando decidi estudar Cioran.
16/09/2017
Honestamente, acho que já
cheguei ao ponto no qual já sou mais saudável (física e mentalmente) do que a
média da população. O ideal do outsider
saudável (aventado em algum capítulo do Outsider
à beira do abismo, não lembro qual) foi atingido com sucesso.
17/09/2017
Gurus e a vontade de potência
Além da ideologia-utopia, e
da idolatria, o que move aqueles que querem ser gurus é a vontade de potência,
o desejo de ser o macho/fêmea alfa de um bando. E é justamente o macho alfa
(que Freud identificou com o além-do-homem nietzscheano), surgido muito antes
do Homo sapiens, a figura arquetípica
que alimenta esses sonhos de “liderança”, de “influenciar pessoas”. No fundo o
que querem é o controle total (ideológico, psicológico, laboral e até sexual)
sobre um grupo de pessoas – e, se fosse exequível, sobre toda a humanidade. Por
mais nobres que acreditem ser suas intenções, nunca conseguem se livrar
totalmente desse tipo de anseio, mesmo que às vezes o escondam de si mesmos.
Quanto mais consciente são desse objetivo, mais eficientes são em manipular os
outros: são esses aqueles casos típicos de seitas na qual o líder praticamente
escraviza seus seguidores, e inevitavelmente acaba por cometer abusos sexuais contra alguns.
Talvez haja alguns (aspirantes
a) gurus que são tão comprometidos com a ideologia-utopia que, ao menos
inicialmente, consideram a liderança como um fardo, mas provavelmente acabam
cedo ou tarde se corrompendo pelas delícias do poder. Já outros, justamente os
mais maquiavélicos, querem só o poder mesmo, e sabem muito bem disso; para eles
a ideologia-utopia é só um chamariz para os incautos a serem escravizados.
Mas o arquétipo do macho alfa
não afeta só o imaginário daquele que quer ser líder, afeta também o daqueles que querem ser rebanho: por mais que
haja uma aparência de democracia e de igualdade, boa parte das pessoas anseia por ser liderada, por alguém que tome as decisões e se responsabilize por isso.
Servidão voluntária, ou, mais provavelmente, inscrita em nossos genes.
18/09/2017
Cada um na sua, e todos (cada
um a sua maneira) contribuindo para a extinção da humanidade. “Ain, eu busco
ser parte da solução, e não do problema”. Se você realmente busca isso, o
melhor então é se matar (ou ao menos não ter filho(a)(s)).
*
O campo do esoterismo
(pensamento religioso, espiritualidade) é o campo ilusório por excelência – e justamente
por isso é o melhor espaço de trabalho para os charlatães.
domingo, 3 de setembro de 2017
XXVI
29/08/2017
Um dos preços da comunicação
não violenta é a regressão da consciência para níveis pré-históricos
(obviamente incompatíveis com a manutenção de uma civilização).
*
Ao se comprometer com a vida
(e inclusive Rosenberg preferia o nome “uma linguagem da vida” em vez de
“comunicação não violenta”), a CNV compromete-se inevitavelmente com a ilusão.
*
A CNV se ilude ao menos duas
vezes na ontologia que faz das necessidades humanas: primeiro, quando imagina
que todas elas são “do bem” (não existe, por exemplo, necessidade de se sentir
melhor do que os outros) e, segundo, quando imagina que é possível satisfazer
simultaneamente todas as necessidades de todos (sendo que mesmo em uma só
pessoa as necessidades já se contradizem entre si, o que dirá então em uma
coletividade).
*
Ou as coisas acontecem com
tranqüilidade e sem abalar a minha paz de espírito, ou não acontecem: nada vale
o meu estresse e o meu sacrifício. Vamos todos morrer e morrer sozinhos. Para que se esforçar seja lá pelo que for? Por que não relaxar e aproveitar quando
se sabe que tudo acabará um dia mesmo?
30/08/2017
Se a vida fosse uma sucessão
de prazeres, as pessoas não estariam desesperadas para lhe dar um sentido moral
e para se anestesiarem com distrações de todo tipo (serviços muito bem prestados
pelas religiões). Esse desespero é evidência de que a vida é o oposto de uma
sucessão de prazeres, e que para se aderir a ela (ser um agente da autopoiese –
simplesmente exercer seus instintos ao mesmo tempo que se tem uma metacognição)
é preciso iludir-se. Basta ser uma máquina autopoiética dotada de lucidez para ser iludido.
Igualmente, as teodiceias da autoajuda seriam
desnecessárias se o mundo fosse o que elas dizem que ele é: elas são um
perpétuo movimento de negação do conhecimento do real em prol da adesão cega a ele,
tudo isso disfarçado de “autoconhecimento” e “autoaprimoramento”. Tragicômico.
31/08/2017
Mesmo que fosse possível
provar que existem seres inteligentes “do outro lado” (num outro nível do real
ao qual não temos acesso) e ainda que esses seres se comunicam conosco (ou
seja, eles podem acessar nosso nível do real, mas nós não podemos acessar o
nível deles, conhecendo-o apenas pelo que eles nos relatam, ou eventualmente
por meio de uma viagem intermediada por eles), ou seja, mesmo que fosse
possível provar que essas pessoas que alegam entrar em contato com o além realmente estão entrando em contato com
o além, mesmo assim, dizia eu, esses seres
simplesmente não seriam dignos de confiança (assim como não o são as pessoas que alegam falar com eles): como é uma relação marcada essencialmente
por uma assimetria informacional, não temos como ratificar ou retificar o que
eles dizem (não há como validar o que dizem, como verificar o contraditório), e, portanto, se acreditamos neles
simplesmente damos carta branca para eles nos manipularem livremente. Mesmo que
esses seres existam e queiram falar conosco, eles, por uma questão puramente topológica, merecem nosso desprezo.
A questão não é que seja inútil se envolver com esse tema por ele ser obviamente falso (como pensa o ceticismo "neoateu"/cientificista), mas sim por ele estar obviamente para além de qualquer possibilidade de validação epistemológica (ceticismo, mas no sentido filosófico do termo).
A questão não é que seja inútil se envolver com esse tema por ele ser obviamente falso (como pensa o ceticismo "neoateu"/cientificista), mas sim por ele estar obviamente para além de qualquer possibilidade de validação epistemológica (ceticismo, mas no sentido filosófico do termo).
01/09/2017
Todos os caminhos levam para
fora da vida.
*
O simples fato de não
entrarmos coletivamente em acordo sobre o
que somos já é suficiente para mostrar que não somos nada: se fôssemos algo
isso ser-nos-ia imediatamente cognoscível, e portanto não haveria desacordo
ontológico a respeito dessa questão. Por não sermos nada, cada um consegue
inventar e acreditar em qualquer ontologia absurda, e por isso não há
possibilidade de acordo.
*
“Animais: se você ama uns,
porque come outros?”
Esse pessoal não percebe que
o amor pelos animais serve tão somente como masturbação de determinadas redes
neurais (para assim sublimar instintos)? Ele nada tem a ver com uma
deontologia.
Como se adiantasse alguma
coisa exigir coerência das pessoas em termos de uma moralidade universal quando
elas nem conseguem ser coerentes consigo mesmas... Oh pessoalzinho otimista,
hein.
02/09/2017
A propensão à adoração é
indicativa de afirmação do querer viver (adesão cega à autopoiese). Se existe ainda ascese verdadeira na
Índia (nesse lugar onde o povo adora desesperadamente qualquer coisa),
certamente ela é residual (mesmo porque se não o fosse esse país não teria a
densidade populacional que tem).
Esse papo de considerar os orientais
em geral e os indianos em particular um povo “altamente espiritualizado” é puro
marketing para vender gurus. Como as
pessoas querem acreditar que existe
alguma salvação, e como é evidente que ela não está próxima a elas, o jeito é
imaginar que ela está em algum outro
lugar (seja distante em termos espaciais e/ou temporais). O culto á Índia
que ocorre em certas subculturas no Ocidente é só mais um verbete na
enciclopédia das utopias inventadas pela humanidade.
Se o Oriente em geral e a
Índia em particular fossem tão “evoluídos espiritualmente” como esse pessoal
gosta de acreditar, eles não estariam integrados nessa maquina omnicida do
capitalismo global. Idolatrar a Índia por causa dos Vedas é tão ingênuo quanto
idolatrar a França por causa de Lacan, ou idolatrar a Alemanha por causa dos
seus muitos filósofos, ou a Romênia por causa de Cioran, etc. O vulgo é o vulgo em qualquer lugar, pouco importando os sábios que conseguiram se criar no meio
dele.
*
Quanto mais o sistema
econômico progride e quanto mais a tecnologia reificante avança, mais a maquina
omnicida da autovalorização do capital torna-se autônoma, prescindido assim de
seus operadores (os quais acreditam que a máquina trabalha para o bem estar
deles...): quanto mais nós, humanos, corremos para sermos produtivos, mais
produzimos a nossa própria redundância. Se o improvável ocorrer e tudo “der
certo” (se não nos destruirmos antes), chegará o dia em que o sistema estará
maduro o suficiente para se livrar de nós de uma vez por todas, e assim iniciar
um novo estágio no automatismo da matéria que anima o devir.
03/09/2017
Quando se aprende a olhar por
detrás das máscaras de bem resolvimento que as pessoas usam, descobre-se que
todos os seres humanos são, sem exceção, essencialmente doentes.
sábado, 12 de agosto de 2017
XXV
27/07/2017
– Você é
relativista?
– Depende do
ponto de vista...
*
Os
verdadeiros pessimistas não falam sobre seu pessimismo. Porque sabem que não
adianta...
*
É
impressionante o contraste entre as buscas megalomaníacas da minha adolescência
e a da minha juventude – em que eu me enredava em buscas insanas para ampliar o
ter e o ser – com a minha situação atual (estou perto dos 31 anos), na qual boa
parte do meu esforço se concentra em simplesmente adiar o inevitável colapso
fisiológico do meu organismo, acompanhado de suas respectivas dores físicas (ou
seja, meu esforço foca-se em manter o que já tenho e em tentar adiar sua
perda).
A simples passagem do tempo nos impõem um
processo contínuo de morte. Parece que passou um tempo infinito desde que eu
postei o primeiro capítulo do Outsider àbeira do abismo, no entanto não faz nem dez anos ainda. O que eu fui já está morto. A morte, decorrente do mero automatismo da matéria no tempo, não nos acomete apenas no fim da vida: ela é onipresente e nos acompanha em cada golfada de ar. Essas conclusões eu já conhecia de ler Schopenhauer, mas agora começo a entendê-las intuitivamente.
28/07/2017
Será que,
segundo as doutrinas cristãs, Jesus cagava? E cagava fedido de vez em quando?
Se é para Deus vir à Terra viver como humano, isso esteve incluído no pacote,
não é?
04/07/2017
O pessoal
que fala em “especismo” é tão otimista que eles parecem não notar que é muito
mais provável que esse conceito seja usado para legitimar o canibalismo do que
para convencer as pessoas a abdicarem do consumo de produtos frutos do
sofrimento animal.
05/07/2017
O
bom-mocismo do senso comum repete das mais diversas formas a mesma “lição de
moral” esquizofrênica que basicamente diz “faça o bem sem querer recompensa
e... você receberá uma recompensa!”
06/07/2017
O esforço
com que os evangelistas do otimismo buscam espargir positividade ao seu redor é
diretamente proporcional ao desespero que sentem e que tentam esconder de si
mesmos. Puro mecanismo de defesa do ego.
Tipo limite.
Já faz um
bom tempo que eu consigo colocar habitualmente em prática o que digo em
01/12/2016 (“Quando abandonamos as ideias de teleologia e de progresso histórico,
abandonamos também as de ‘certo’ e ‘errado’, ‘pessoas melhores’ e ‘pessoas
piores’, ‘pessoas boas’ e ‘pessoas más’, etc. Abandonar essas ideias é como
sair da reta dos números reais e ir para o plano dos números complexos, no qual
não existe mais uma hierarquia de grandeza – existem apenas diferentes e
caóticas formas de se distrair enquanto a morte não chega.”): os meus
julgamentos sobre os outros são atualmente horizontais e não verticais: eles
indicam o quanto eu estou longe idiossincrasicamente dos outros, mas não
implicam em uma hierarquização que me coloca acima ou abaixo deles (como,
aliás, faz repetidamente Schopenhauer em seu livro secreto (escrito para si mesmo),
publicado no Brasil com o título de A arte de conhecer a si mesmo (eu
chamaria de inventar a si mesmo...)).
Imaginando
as idiossincrasias dispostas em um plano complexo e as pessoas com
idiossincrasias semelhantes agrupadas ao longo do plano, a minha idiossincrasia
é uma dos tipos limites, que fica próxima a alguma das bordas do plano e, por
isso mesmo, encontra cumplicidades em poucas pessoas, é solitária, estrangeira.
Os meus julgamentos apenas apontam essa falta de cumplicidade e de identificação
com os outros, mas dispensam uma hierarquia que sirva de defesa diante do
desconforto da solidão.
Essa
desnecessidade de ficar atacando mentalmente os outros contribui bastante para
a promoção da paz de espírito :D
*
Cioran, construtivismo
social, sociobilogia, eudemonismo niilista, antropologia filosófica, sexta
extinção em massa, transhumanismo, Discordianismo, Gurdjieff, Greene, Icke, CNV,
Thelema, antinatalismo, extincionismo, indifferens
fati: ideologicamente, a minha mente é uma salada de fringes. Essa foi a consequência de “buscar complexificar minha
alteridade”.
Por mais que
eu me sinta só com minha alteridade complexifica, quando eu ouço os outros
falando baboseiras esotéricas e otimistas eu sinto que meu sacrifício pela
verdade valeu a pena.
07/07/2017
O
maravilhamento com a natureza e com a ciência que desvenda seus segredos (e o culto
aos cientistas disso decorrente) é o sucedâneo na ideologia cientificista
(onipresente na divulgação científica) daquilo que o Deus bom é para os monoteísmos:
um avatar do instinto de autopreservação, a rasgar-se em elogios à vida.
10/07/2017
A quádrupla raiz do mal:
1.
autopoiese (comum a todas as formas de vida) (versão materialista da “vontade”
schopenhauriana);
2.
heterotrofismo (comuns a todos os animais e hipertrofiado no carnivorismo);
3. exaptação
negativa da lucidez (a gênese da condição humana);
4.
reificação (derivada também da lucidez, e sem ela não se tem civilizações).
Só a quarta
raiz é uma construção social humana (e, portanto, poderia ser desfeita, como
sonham os utopistas), as outras três pertencem ao domínio da
biologia/corporeidade (a terceira até é em parte cultural, mas sem ela somos animais como quaisquer outros, logo se abdicarmos dela estamos abdicando da condição humana). A vida primitiva não era agradável, e provavelmente por
isso as pessoas foram voluntariamente construindo a civilização. Talvez as
coisas agora estejam piores (difícil avaliar, eu teria que ler muita
antropologia para dar um palpite), mas não teríamos como voltar atrás sem abdicar
dos confortos materiais que a civilização propicia (isso ignorando o fato de
que a atual civilização já está em uma mórbida relação de simbiose parasítica
com a natureza: se a civilização fosse parada de um dia para o outro, teríamos
chacoalhões nos sistemas naturais que iriam destruir boa parte da vida humana,
talvez toda ela; tem ainda todo lixo radioativo que produzimos e que precisa
ser administrado por alguma civilização... ou seja, estamos num trem desgovernado em alta velocidade rumo à catástrofe, e não há como pará-lo antes dele atingir o desastre final).
Utopistas
sempre colocam a origem do mal no domínio da história cultural humana, para
assim poderem sonhar com a reversão do processo (por exemplo, culpam a invenção dos gêneros, da propriedade privada, da religião, do Estado, etc.). Parecem não notar que o
processo não teria sido realizado diuturnamente pelos seres humanos se eles não
tivessem um ganho com isso: as pessoas não iriam produzir ao longo de séculos,
ou mesmo milênios, condições de vida piores se não ganhassem algo com isso.
Chuto que o que ganhavam, e que ainda ganhamos, com isso é o conforto material, o qual não tem como
ser produzido sem divisão social do trabalho, e, portanto, sem reificação. Ou seja, se chegamos até aqui, foi perseguindo a satisfação de determinadas necessidades que as condições primitivas de vida eram e são incapazes de satisfazer: a vida anterior à Queda também era ruim, do contrário não teríamos nos aventurado para longe dela.
Eu gostaria
de escrever um ensaio desenvolvendo essa ideia da quádrupla raiz do mal, mas
nunca terei tempo para priorizar isso (há muito material para ler e para pensar
a respeito), dado que escolhi outras prioridades na minha vida em vez das elucubrações intelectuais.
*
A CNV
(Comunicação não violenta), portanto (continuando aqui o raciocínio do
fragmento anterior), ao querer, no limite, restabelecer a mentalidade humana
primitiva (anterior à reificação) (como diz Rosenberg, “conectar-nos com a
forma natural de pensar”), é incompatível com a qualquer civilização. Alguém
que tenta usá-la diuturnamente está produzindo a sua própria desconexão com a
civilização em que vive, o que trará a si consequências matérias (a menos que a
pessoa seja herdeira, ou vire mendiga, ou eremita, ou resida em uma comunidade
alternativa, etc.).
Eudemonisticamente,
e é esse meu interesse, a CNV pode ser útil se utilizada instrumentalmente para
lidar consigo mesmo, com pessoas com as quais temos relações íntimas e,
eventualmente, com pessoas com as quais convivemos (colegas de trabalho,
vizinhos, trabalhadores que prestam serviços a nós, etc.). As pessoas que se
aproximam da CNV por causa da utopia que ela alimenta (e a maioria o faz), ou
as pessoas que se aproximam pensando em melhorar suas vidas mas que se deixam
seduzir por essa utopia, estão condenadas a pegar uma ferramenta que poderia
melhorar a vida delas e transformá-la numa fonte de sofrimento para si mesmas.
11/07/2017
Sentido físico do universo: aumento da entropia;
Sentido moral do universo: nenhum;
Sentido físico da vida: autopoiese;
Sentido moral da vida: nenhum.
Schopenhauer diz, capítulo VIII, §109, de Parerga e Paralipomena, o seguinte:
"Que o mundo possui apenas uma significação física, e nenhuma moral, constitui o maior, o mais condenável, e o mais fundamental erro, a própria perversidade da mentalidade, e provavelmente forma no fundo aquilo que a fé personificou como o anticristo. Contudo, e a despeito de todas as religiões, que em sua totalidade afirmam o contrário, o que procuram fundamentar à sua maneira mítica, este erro fundamental nunca desaparece inteiramente do mundo, mas, de tempos em tempos, sempre ergue novamente sua cabeça, até que esta é novamente forçada a se encobrir pela indignação geral."
Erro fundamental? Indignação geral? Não percebe Schopenhauer o perigo de recorrer ao arbítrio do vulgo como fiel da balança? Essa verdade fundamental desagrada ao vulgo porque é incompatível com a realização da autopoiese (nas palavras de Schopenhauer, com a afirmação do querer-viver), e, por isso, deve ser negada. Não percebeu Schopenhauer a contradição entre o conhecimento e a vida? Percebeu, mas por que aqui parece não notar isso? Isso que dá levar Platão a sério, com seu blá-blá-blá de identidade entre verdade, bem, virtude, beleza... O fato da massa, formada por meras máquinas autopoiéticas (para usar a linguagem schopenhauriana: pessoas cujo intelecto não está em nada emancipado da vontade), não aguentar essa falta de sentido moral para a vida deveria ser uma evidência de que essa falta é justamente a verdade.
Sem perceber, aqui Schopenhauer se comprometeu com a afirmação da vontade que ele tanto demonizou. Isso que dá ser um idealista.
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