quinta-feira, 30 de abril de 2020

XXXI


05/04/2020


Por mais abstrato que o conceito de “Deus” seja em comparação com os deuses politeístas, Deus ainda tem um resquício de animismo, e esse resquício facilita com que o grande público se relacione com a Vida e com o Mundo – que são conceitos que se referem ao Real (enquanto Deus é uma fantasia), porém, por não serem dotados de uma personalidade, de um animus, são mais difíceis de serem compreendidos pelo povão, por exigirem um poder de abstração invulgar. É mais fácil para o humano médio se relacionar com uma personalidade falsa do que com um abstração verdadeira mas sem personalidade. Mesmo porque a personalidade implica na possibilidade de oferecer algum auxílio mediante suplicas e adorações, enquanto a ausência de personalidade corta essa pseudo-possibilidade utilitária de intercâmbio.

Deus, assim, acaba sendo um artifício do instinto de conservação para ajudar o humano médio a aceitar as agruras da Vida e do Mundo. Ou seja, Deus é uma fantasia para facilitar a produção do amor fati. Ser submisso a Deus, se humilhar para ele, adorá-lo, não criticá-lo mesmo quando se está na penúria (vide o caso de Jó, citado à exaustão pelos cristãos), etc., nada mais é do que aceitar a vida como ela é, dizer Sim, mediado por uma fantasia animista. Assim como Nietzsche acusou o Cristianismo de ser um platonismo para as massas, podemos dizer que o próprio nietzscheanismo é um cristianismo para os eruditos, ou, se preferir, para os esnobes.

Se já é difícil as pessoas abandonarem crenças em geral (pois estão ligadas ao seu ego), se é mais difícil ainda abandonarem crenças incutidas em suas mentes em tenra infância por poderosas instituições sociais, mais difícil ainda é abandonar a crença em Deus (ou em deuses quaisquer), pois essa crença está intimamente ligada ao instinto de conservação, à forma como esse é racionalizado (é traduzido mediante signos) no neocortex.

Não que Deus seja o único artifício para o populacho chegar ao amor fati. Praticamente todo o esoterismo e toda autoajuda vai na mesma direção, vide “A Lei da Atração”, “O Poder do Pensamento Positivo”, etc.


13/04/2020


A pandemia da COVID-19 desnudou de forma extremamente concreta – a destruição de nossas mimadas rotinas – e essência irracional da vida (e, quiçá, do próprio universo dentro do qual a vida emergiu como subproduto da atividade da matéria): a autopoise, a concreção da Vontade denunciada por Schopenhauer. Não que acrescente algum conhecimento novo, apenas acrescenta-lhe uma demonstração cabal, intuitiva, espetacular. Previsivelmente, não vi ninguém comentando sobre isso. Pelo menos, após tantos anos de desgraça e agora ainda isso, até os otimistas mais despudorados estão dando sinal de cansaço e de que vão jogar a toalha. E é só o começo de nossa via-crúcis. Vai piorar.



18/04/2020


Agora, que a morte se aproxima para todos os humanos, venho pensando bastante na minha vida. Se há algo que não me arrependo nesta vida, é da pornografia que consumi. Valeu a pena cada foto e cada vídeo. Evidência de como estou longe de atingir a salvação que eu mesmo apresentei no Post (mortem) scriptum. Se é que essa salvação existe.



19/04/2020


Em março desse ano eu fui diagnosticado como tendo TEA (Transtorno do Espectro Autista), grau 1 (autismo leve, Síndrome de Asperger, CID F84.5). Foi o fechamento de um processo que começara em agosto de 2019, quando eu me autodiagnostiquei como sendo autistas. O processo envolveu três médicos (sendo um deles uma psiquiatra especialista em autismo) e uma psicóloga especialista em avaliação neuropsicológica (a qual realizou testes padronizados comigo ao longo de 9 consultas antes de chegar ao fechamento do diagnóstico).

Embora algumas das minhas características exibidas em meus textos possam decorrer do autismo, após 8 meses acompanhando as produções audiovisuais de autistas na internet eu pude concluir que ao menos três características bem marcantes da minha idiossincrasia não são fruto do autismo: 1. o pessimismo; 2. a agnosia/o ceticismo; e 3. o sofrer por não saber a verdade (essa última é, de longe, a característica mais rara que eu tenho, estimo que só ocorra em uma pessoa a cada 100 milhões).

Por umas semanas, eu desconfiei que o mundo poderia ser melhor só com autistas, mas, após tantos meses acompanhando autistas e ao descobrir que figuras como Paulo Kogos são autistas, essa hipótese foi descartada. Já convivi com mulher vegana praticante de CNV e de yôga para descobrir que se o mundo fosse repovoado só com gente deste demográfico ainda sim ele (o mundo) seria uma merda e estaria condenado ao suicídio. Não há salvação para humanidade, nem mesmo salvação meramente imaginária.


24/04/2020


"O que se deve fazer num mundo onde quase tudo que vale a pena ter ou fazer é impossível?" (Bukowski)


"O paraíso não era suportável, senão o primeiro homem ter-se-ia acomodado a ele; este mundo também está longe de o ser, porque nele lamentamos o paraíso ou gozamos antecipadamente um outro. Que fazer? Onde ir? Não façamos nada, nem tentemos ir a lugar nenhum, muito simplesmente." (Cioran, em "Do inconveniente de ter nascido")


Mas sem uma herança, ou sem um prêmio de loteria ou sem a renda mínima do Suplicy, morremos de fome se não fizermos nada... Como diz o próprio Cioran, vivemos numa paródia do inferno.


28/04/2020


Comparando o omniverso com a execução de um arquivo de mídia

O arquivo é o nada/tudo (sim, nada e tudo se encontram, como dizia Hegel para o horror de Schopenhauer), a “placa holográfica”, a totalidade das partículas virtuais e todas suas interações possíveis, o mundo das ideias de Platão: um repositório estático com TODAS AS INFORMAÇÕES DE TODAS AS POSSIBILIDADES DE INTERAÇÃO DE TODOS OS ELEMENTOS FUNDAMENTAIS (BRANAS?). Há um mecanismo, tipo uma vitrola, tipo um computador, que “lê” o arquivo, reproduzindo assim as informações em espaço-tempo e energia-matéria. Vivemos nessa reprodução. Pense num filme em streaming. Vivemos no filme, ele é o universo que sentimos. Mas a informação do futuro já existe, assim como a do passado se conserva. Essa informação precisa de um mecanismo para ser executada, “rodada”, e assim consubstanciar, concretizar, a materialização do fluxo informacional no tempo.

Este universo em particular é a execução/leitura de um dos caminhos (um desdobramento entre zilhões e zilhões de possibilidades). Cada universo, ou mesmo cada multiverso, é a execução/leitura de um outro caminho. (O multiverso em que estamos é formado por todas a variações quânticas da configuração inicial de um Big Bang específico; mas há zilhões de configurações de Big Bangs; logo, há zilhões de zilhões de multiversos: o omniverso.)

Os chamados “fenômenos psi” decorrem do “hackeamento”, de “falhas” na execução desse arquivo (ou mesmo de aparentes falhas, isto é, de falhas que só aparecem como falhas porque não temos um conhecimento mais completo da hiperfísica envolvida). De alguma forma, nossas consciências estão conectadas nesse domínio informacional atemporal. Esse tipo de modelo abre espaço para uma espiritualidade niilista hiperfísica. Assim, não se faz preciso fugir da possibilidade a existência de fenômenos “espirituais”, como fazem os neoateus, os ateus materialistas e os cientificistas.



quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

XXX

15/07/2019

A única conclusão legítima é a de que é ilegítimo chegar a qualquer conclusão sobre qualquer assunto.


08/11/2019

A condição aporética e insustentável da humanidade independe da existência ou não de um além, de um “mundo espiritual”. Ou, como parece ser o caso, esse mundo espiritual não existe, e todas as supostas provas da existência dele são falsas, ou, se ele existir, ele está submetido às mesmas aporias que aprisionam a condição humana, e portanto não tem condições de salvá-la de si mesma (pois só uma força exógena e livre dessas aporias poderia evitar que a humanidade acabe por se autodestruir). Portanto, tanto faz se existe um mundo espiritual ou não.

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O próprio conceito de “desenvolvimento sustentável”, quando colocado, como o é, pelos políticos como uma meta a ser alcançada, já é uma admissão de que vivemos um “desenvolvimento insustentável”. Já é admissão, portanto, que a civilização atual ruma para a sua autodestruição.

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Ao observar os conflitos de narrativas, notamos que o problema (o qual impede um real entendimento entre as pessoas), está na pressa com que as pessoas chegam a conclusões e na convicção com que se agarram a elas. Leia aquele meu primeiro texto filosófico, lá no Ensino Médio, e você verá que eu já falava isso lá, com outras palavras. [NOTA: revirei a casa procurando o texto e não o achei; se um dia ele aparecer, coloco-o aqui no Diário de um Outsider.] Para que as pessoas conseguissem chegar a acordos ontológicos (conseguissem construir narrativas comuns, que ultrapassassem as comunidades interpretativas) para além da mediocridade do senso comum, seria necessário que elas admitissem sua ignorância e que se dispusessem a realizar longos e profundos estudos, para daí então opinar e, depois, agir. Mas a pressão dos acontecimentos e a luta pelo poder, além da preguiça e da vaidade, empurram as pessoas para concluir rápido e para se agarrar a conclusões peremptórias. Num mundo onde os acontecimentos são cada vez mais rápidos e onde o volume de informações é cada vez maior, não há esperança, salvo pelo uso em massa de tecnologias transhumanas (o que eu não acredito que vá ocorrer, e se o fosse não seria para essa finalidade), de que a qualidade dos conflitos de narrativas possa melhorar, ao contrário, a tendência é piorar ainda mais.


18/12/2019

Mais do mesmo
Quando Cioran (em “O cenário do saber”, entre outros textos) e eu mesmo falamos que existem as crenças mais diversas e esdrúxulas nas mentes humanas, estamos meramente constatando um fato social. O fato dessa diversidade existir não significa que, do ponto de vista epistemológico, todas essas crenças são equivalentes, são intercambiáveis, não significa que não há uma metodologia capaz de hierarquizá-las em termos de qualidade epistemológica e maior probabilidade de verdade. Reconhecer que o método científico é epistemologicamente superior não é equivalente a acreditar na Virgem Maria ou a acreditar que um sonho lúcido que se teve é uma “memória de uma vida passada” só porque se “sente” que isso é verdade (ou seja, simplesmente porque se quer acreditar nisso).
Tá bom que Cioran diz que “quando se recusa a reconhecer o caráter intercambiável das ideias, o sangue corre”. Mas isso é uma questão ética, deontológica, não ontológica e epistemológica. E meu foco é na epistemologia e da ontologia – sou um fanático pela busca da verdade. (E, também, dane-se Cioran, ele não era coerente nem com ele mesmo, não sou eu que vou querer ser coerente com ele. Tenho meu próprio caminho, no qual Cioran é importante, mas não me submeto cegamente a ele nem a ninguém.)
Nessa minha busca, é totalmente vão querer instruir as pessoas, tentar fazê-las entender que o método científico tem uma superioridade epistemológica frente às demais formas de conhecimento. É inútil, há mesmo gente com mestrado e doutorado que não reconhece isso – e não porque de fato estudaram a questão e questionaram o método científico, mas simplesmente porque não pensaram no assunto, porque sequer se importam com isso, porque não compartilham comigo da monomania epistemológica e ontológica. Quase ninguém se importa com isso. Em geral, as pessoas simplesmente se agarram às suas convicções, sejam elas simplórias ou enredadas em intrincados e verborrágicos discursos intelectuais. Praticamente ninguém tenta partir da dúvida e se esforça para buscar o método mais válido epistemologicamente para daí, então, buscar usar ele o máximo possível em suas invectivas. E não que não existam críticas ao método científico – existir existe crítica a tudo dos mais variados pontos de vista. Mas se alguém critica a ciência com base numa convicção religiosa, não tenho dúvidas de quem é que está sendo vítima do viés cognitivo mais egoico e mais vil, se a pessoa por preferir a religião dela ou se eu por preferir o método científico.
Não adianta achar que a “verdade objetiva” é a verdade na qual a maioria das pessoas acredita, é a verdade reconhecida pela maioria das pessoas, é o senso comum. Não é, porque a imensa maioria das pessoas está simplesmente presa em suas (inter)subjetividades (e cada vez mais nesta hipermodernidade na qual estamos afundando). A verdade objetiva é a verdade revelada por um método específico, e não por uma assembleia onde ganha a maioria ou os que fazem mais barulho. Mesmo os que reconhecem a superioridade epistemológica do método científico são quase todos também idólatras e fanáticos (neoateus, por exemplo), e não pessoas que conseguem reconhecer as limitações do método científico e mesmo o papel destrutivo da ciência (a humanidade não estaria à beira da extinção se não fosse pela ciência – o que não significa que a ciência não seja o melhor caminho para tocarmos o Real, para nos aproximarmos da Verdade; praticamente NINGUÉM é capaz de entender e aceitar essa aporia).
Não cabe a mim tentar convencer ninguém da razoabilidade e da superioridade epistemológica da ciência (em simultaneidade com suas limitações e com seu poder destrutivo que está nos matando – e é ele que está nos matando, não adianta vir com o papo de que a ciência é neutra, ela não é, ela constrói sua verdade (a melhor verdade possível, epistemologicamente falando) por meio da destruição do seu objeto, do esquartejamento; a ciência não casou tão bem com o capitalismo por acaso, mas sim porque ambos compartilham o mesmo pecado original Moderno de instrumentalizar tudo, de reificar tudo como mero recurso a ser explorado). Quando mesmo mestres e doutores não são capazes de entender isso, já está mais do que claro que esse seria um trabalho de tentativa de instrução totalmente contraproducente. Não que não deve haver autores acadêmicos que entendam e que falem isso (com termos mais rebuscados e um texto melhor referenciado), mas suas vozes se perdem na cacofonia da academia. Se eu me especializasse no estudo acadêmico da epistemologia, provavelmente chegaria aos rincões onde eles estão escondidos. Mas nesse mundo cão, priorizar isso seria pedir para virar mendigo.
Estamos todos sós, cada um a sua maneira. Essa minha posição (que reconhece simultaneamente o que há de pior e de melhor no método científico) é raríssima, ainda mais para pessoas fora da comunidade interpretativa dos epistemólogos. Não conheço ninguém que pense assim, que balize seus juízos ontológicos e epistemológicos por isso. Talvez o Guy McPherson e alguns lá na subcultura da NTHE (Near Term Human Extinction), embora não tenha visto ninguém falar isso especifica e explicitamente. Deve existir uma meia dúzia de pessoas que concordem comigo. Mas é inútil procurá-las, e mais inútil ainda tentar criá-las. O que me resta é seguir meu caminho sozinho e submetido às amplas restrições que oprimem minhas ambições (ser um mero trabalhador do terceiro mundo, etc.), para ver no que ele vai dar, e, então, guardar o resultado para a única pessoa que vai se interessar – eu mesmo.


19/12/2019

Há instantes nos quais queremos depor as armas e escavar nossa tumba ao lado da de Deus. Ou senão, reviver petrificados a desesperança do asceta que descobre ao final de sua vida a inutilidade da renúncia. (Cioran, Lágrimas e Santos)

Desde o dealbar da exaptação negativa da lucidez os humanos buscam a salvação. Dezenas (talvez centenas) de milhares de seitas, religiões, doutrinas, escolas, ideologias, movimentos, empreendimentos, etc. Tudo em vão. Milhões de santos, profetas, líderes prescrutando o Oculto, o Além e o Futuro em busca da redenção. Todos fracassaram. Não há saída para lugar algum. Mas vão desistir os humanos de procurá-la? É claro que não vão. Enquanto houver as condições físicas no planeta para o fenômeno humano existir (e talvez já não haja em poucas décadas...), a tragicomédia vai continuar. Isso é bom ou ruim? Tanto faz os julgamentos morais que cada pessoa pode elaborar e propagar, pois esse desdobramento autopoiético, essa reação em cadeia, esse mero automatismo da matéria, vai continuar tautologicamente até o esgotamento tautológico das condições físicas que o fundamentam.



XXIX

(19/12/2019
O próximo capítulo tem anotações que começam em 15/07/2019. Quase um ano sem anotar nada, é isso mesmo? Aparentemente, sim. Procurei anotações e não achei. Aparentemente, eu estava ocupado com outros projetos internéticos, que não convém mencionar aqui... E espero não voltar a ficar fazendo anotações constantemente, mesmo porque eu praticamente só fico me repetindo, falando as mesmas coisas com outras palavras...)

XXVIII

28/09/2017

Existem sistemas de organização social menos ruins do que outros – no sentido de que esses menos ruins conseguem realizar uma gestão mais efetiva, salutar, do material humano e de sua interação com a natureza. Mas todas as formas de organização social são essencialmente ruins e fracassadas, pelo simples motivo de que estão lidando com algo essencialmente ruim e fracassado: o ser humano em particular e a vida em geral. Alguns utopistas, portanto, estão parcialmente certos: seus esforços de melhoria da condição humana até geram algum resultado apreciável – mas efêmero e muito aquém do que é o prometido (a saber, uma cura para a condição humana). Será que os utopistas se dariam aos esforços que se dão se acreditassem que os frutos de suas atividades são meros paliativos diante de uma condição humana constitutivamente incurável? Da minha parte, decido solenemente ignorar essas discussões políticas, ideológicas, ontológicas, deontológicas, e decido focar no meu bem-estar – niilismo eudemonista.


30/04/2018

2008: as coisas começaram a mais piorar do que melhorar no mundo. 
2013: as coisas começaram a mais piorar do que melhorar no Brasil.
2015: começou a ficar inviável para mim imaginar a minha vida melhorando (como cenário de futuro, a sexta extinção substituiu a singularidade tecnológica).
2018: pós reforma trabalhista, a minha vida começou a piorar de fato com o fim (em setembro) do Acordo Coletivo de Trabalho assinado em 2016.
[Escrito em 19/12/19: no segundo semestre de 2020 vai vencer o atual ACT, e agora a perspectiva é a cada ACT as coisas ficarem piores.]


22/05/2018

As pessoas que alegam estar buscando o “sentido da vida” (ou mesmo o “autoconhecimento”) em geral são pessoas que subjetivamente já se comprometeram com o “Sim” (com a afirmação do querer-viver, com a agência da autopoiese), mas que ainda não arranjaram uma metanarrativa que seja-lhes suficiente – ou seja, que consiga de forma satisfatória abafar-lhes o mal estar fruto da exaptação negativa da lucidez. Enquanto ardil dos instintos de autopreservação para burlar a exaptação negativa da lucidez, o mais importante nessas buscas não é o resultado final, mas a trajetória – a busca, a espera(nça) que mantém a pessoa agarrada à vida enquanto acredita que superará a exaptação negativa de lucidez: é o velho esquema da “cenoura do cavalo”, do objeto a que mantém o movimento de adesão por meio da promessa da satisfação. Mesmo que essa busca se apresente travestida de “expansão da consciência” ela é na verdade um esforço em fugir da exaptação negativa da lucidez (a qual existe justamente devido a um excesso de consciência em relação à animalidade desprovida de metacognição).
Para mim, que desde antes de conhecer Schopenhauer já estava seduzido pelo “Não” (e que na melhor nas hipóteses consigo chegar a uma indiferença entre o "Sim" e o "Não"), essa busca de “sentido para a vida” nunca fez... sentido.

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Se o mundo não está nem aí para mim, porque eu tenho que me importar com ele? De onde sai o imperativo, Nietzsche? Se eu sou uma mera engrenagem em uma máquina omnicida, por que ainda por cima tenho que me sentir grato? Não que eu seja contra quem se sente grato – cada um que faça com sua vida o que quiser... Mas eu não quero agradecer, pouco importa qual seja a chantagem emocional que inventem os que não toleram a existência de gente como eu.


13/06/2018

O pensamento desejante não necessariamente atrapalha o conhecimento. Aliás, em algumas situações pode ajudá-lo: nessas situações, é graças a ele que a pessoa nota detalhes e foca a atenção em pontos que as outras pessoas não notam ou não dão a devida atenção. Às vezes é uma forçada “razoabilidade” ou “imparcialidade” que acaba gerando um viés cognitivo, e não o pensamento desejante (essa forçação não deixa também ela de ter uma origem volitiva, num bom-mocismo ingênuo). Epistemologicamente, isso apenas complica ainda mais as coisas...


24/06/2018

Vendo "Voyage of time".

Quando a mente foca em grandes escalas no tempo e no espaço, há a sensação de sublime, cujo prazer é fruto do esquecimento de si e de seus sofrimentos. Esse prazer, associado ao pensamento mágico/animista, gera uma ilusão cognitiva de "intuição" da "alma" do mundo e/ou do suposto Ser que o criou. Mas não há Ser ou "alma" alguma, apenas o desdobramento incessante da atividade das forças físicas e um sistema nervoso limitado que os observa (e que não evoluiu para essa observação, portanto não está apto a isso).


07/07/2018

Não acredito que a humanidade dure mais cem anos. E mesmo que acreditasse que ela pode durar mais alguns milênios, não acredito que irá progredir (no sentido de solucionar os paradoxos que a animam pelo menos desde o início da civilização). E mesmo que, como os tranhumanistas e outros utopistas, acreditasse que ela está predestinada à grandeza (e mesmo à divindade), por que deveria sacrificar meu bem estar imediato em nome de um futuro do qual não usufruirei?


05/09/2018

A essa altura da História (a altura da sua agonia derradeira) todas as causas são causas perdidas – exceto a causa da aceleração da vindoura catástrofe final.

sábado, 23 de setembro de 2017

XXVII

10/09/2017

Eu consigo detectar a vontade de potência em ação até em uma coelha (de estimação de um amigo) – fêmea, vegana, sem metacognição e livre de quaisquer ideologias...



11/09/2017

Tem gente que tem certeza que existe Deus; tem gente que tem certeza que não existe. Tem gente que tem certeza que há “vida após a morte”; tem gente que tem certeza que não há. Tem gente que tem certeza que o ser humano é, em essência, moralmente bom; tem gente que tem certeza do exato oposto. Etcétera. Convicções não possuem valor epistemológico.

12/09/2017

Por mais disparatadas que sejam as ontologias das pessoas, a maioria delas é compatível com um funcionamento minimamente razoável dentro da sociedade: podem diferir muito na teoria, mas na prática atendem razoavelmente ao mesmo fim: propiciar a adesão à autopoiese (da vida e, junto com ela, da sociedade com seus respectivos poderes estabelecidos).


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13/09/2017

Morreremos todos sozinhos – e iludidos.

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O método científico até consegue se aproximar do Real – mas ao preço de destruí-lo, esquartejá-lo para analisá-lo objetivamente. Não é por acaso que a ciência casa tão bem com o capitalismo e que, juntos, promovem a maior devastação que já houve na história da vida nesse planeta. Mas os idólatras da ciência (dentro dos quais estão quase todos os “neoateus” e quase todos os divulgadores científicos) se recusam a ver isso, dizem que a ciência é neutra e nada tem a ver com o uso que os humanos fazem com suas descobertas...

14/09/2017

Na minha ontologia, suicídio é afirmação ou negação da vida?
Schopenhauer diz que é afirmação, Cioran diz que é negação. E eu, digo o quê? Para mim o suicídio é fruto dos mecanismos psíquicos que buscam fugir do sofrimento. Dá para dizer que ele é negação do sofrimento. Mas se é negação ou afirmação da vida, isso depende do mapeamento cognitivo da pessoa que se mata (ou cogita se matar): se o mapeamento diz que não há nada após a morte, então é negação; se diz que a vida continua, mudando só o locus ocupado pela consciência da pessoa, então é afirmação. O mecanismo biológico que busca reduzir o sofrimento é cego, não possui uma gnose, não sabe o que tem do outro lado – esse conhecimento (essa crença) é terreno do mapeamento cognitivo.
Talvez a espiritualidade pós-moderna esteja contribuindo mais para o aumento dos suicídios do que o usualmente vilanizado ateísmo/niilismo/ceticismo/materialismo: não porque seja a rigor mais danosa nesse quesito, mais por ser mais popular mesmo. Ocorre que nessa espiritualidade cada um inventa a neurose que lhe convém (se afastando das neuroses (religiões) dominantes), embora em geral o faça, por questão de economicidade (e de falta de criatividade), por meio de um pastiche das doutrinas populares, quer religiosas, quer filosóficas, quer esotéricas, quer de autoajuda, etc. Ao afastar-se da coerção de uma doutrina já pronta e estabelecida/defendida por uma instituição, a pessoa acaba forjando uma espiritualidade cujo objetivo central termina sendo o de legitimar as escolhas que ela faz – inclusive, se for o caso, a escolha de se matar. O Deus particular da pessoa acaba fazendo um papel de superego invertido, ou, mais exatamente, um pseudosuperego, que é na verdade o ego fingindo para si mesmo ser um superego. Enquanto no caso da neurose universal/institucional há uma coerção para que a pessoa não se mate, na neurose particular a espiritualidade acaba por validar até a decisão de terminar com a própria vida: não é a falta de fé que mata nesse caso, mas a recusa em se submeter à repressão de uma religião organizada.

15/09/2017

Se o mundo depende do meu esforço para ser salvo, então ele já está condenado. Não movo um único átomo em prol de um mundo melhor.

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Cada fez fica mais perceptível para mim como cada um de nós vive preso em uma realidade particular construída em nossa própria cabeça. Essa percepção já aparecia nos primeiros capítulos do Outsider à beira do abismo, e foi se fortalecendo através dos anos, até se estabelecer em definitivo quando decidi estudar Cioran.

16/09/2017

Honestamente, acho que já cheguei ao ponto no qual já sou mais saudável (física e mentalmente) do que a média da população. O ideal do outsider saudável (aventado em algum capítulo do Outsider à beira do abismo, não lembro qual) foi atingido com sucesso.

17/09/2017

Gurus e a vontade de potência
Além da ideologia-utopia, e da idolatria, o que move aqueles que querem ser gurus é a vontade de potência, o desejo de ser o macho/fêmea alfa de um bando. E é justamente o macho alfa (que Freud identificou com o além-do-homem nietzscheano), surgido muito antes do Homo sapiens, a figura arquetípica que alimenta esses sonhos de “liderança”, de “influenciar pessoas”. No fundo o que querem é o controle total (ideológico, psicológico, laboral e até sexual) sobre um grupo de pessoas – e, se fosse exequível, sobre toda a humanidade. Por mais nobres que acreditem ser suas intenções, nunca conseguem se livrar totalmente desse tipo de anseio, mesmo que às vezes o escondam de si mesmos. Quanto mais consciente são desse objetivo, mais eficientes são em manipular os outros: são esses aqueles casos típicos de seitas na qual o líder praticamente escraviza seus seguidores, e inevitavelmente acaba por cometer abusos sexuais contra alguns.
Talvez haja alguns (aspirantes a) gurus que são tão comprometidos com a ideologia-utopia que, ao menos inicialmente, consideram a liderança como um fardo, mas provavelmente acabam cedo ou tarde se corrompendo pelas delícias do poder. Já outros, justamente os mais maquiavélicos, querem só o poder mesmo, e sabem muito bem disso; para eles a ideologia-utopia é só um chamariz para os incautos a serem escravizados.
Mas o arquétipo do macho alfa não afeta só o imaginário daquele que quer ser líder, afeta também o daqueles que querem ser rebanho: por mais que haja uma aparência de democracia e de igualdade, boa parte das pessoas anseia por ser liderada, por alguém que tome as decisões e se responsabilize por isso. Servidão voluntária, ou, mais provavelmente, inscrita em nossos genes.

18/09/2017

Cada um na sua, e todos (cada um a sua maneira) contribuindo para a extinção da humanidade. “Ain, eu busco ser parte da solução, e não do problema”. Se você realmente busca isso, o melhor então é se matar (ou ao menos não ter filho(a)(s)).

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O campo do esoterismo (pensamento religioso, espiritualidade) é o campo ilusório por excelência – e justamente por isso é o melhor espaço de trabalho para os charlatães.

domingo, 3 de setembro de 2017

XXVI

29/08/2017

Um dos preços da comunicação não violenta é a regressão da consciência para níveis pré-históricos (obviamente incompatíveis com a manutenção de uma civilização).

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Ao se comprometer com a vida (e inclusive Rosenberg preferia o nome “uma linguagem da vida” em vez de “comunicação não violenta”), a CNV compromete-se inevitavelmente com a ilusão.

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A CNV se ilude ao menos duas vezes na ontologia que faz das necessidades humanas: primeiro, quando imagina que todas elas são “do bem” (não existe, por exemplo, necessidade de se sentir melhor do que os outros) e, segundo, quando imagina que é possível satisfazer simultaneamente todas as necessidades de todos (sendo que mesmo em uma só pessoa as necessidades já se contradizem entre si, o que dirá então em uma coletividade).

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Ou as coisas acontecem com tranqüilidade e sem abalar a minha paz de espírito, ou não acontecem: nada vale o meu estresse e o meu sacrifício. Vamos todos morrer e morrer sozinhos. Para que se esforçar seja lá pelo que for? Por que não relaxar e aproveitar quando se sabe que tudo acabará um dia mesmo?

30/08/2017

Se a vida fosse uma sucessão de prazeres, as pessoas não estariam desesperadas para lhe dar um sentido moral e para se anestesiarem com distrações de todo tipo (serviços muito bem prestados pelas religiões). Esse desespero é evidência de que a vida é o oposto de uma sucessão de prazeres, e que para se aderir a ela (ser um agente da autopoiese – simplesmente exercer seus instintos ao mesmo tempo que se tem uma metacognição) é preciso iludir-se. Basta ser uma máquina autopoiética dotada de lucidez para ser iludido.
Igualmente, as teodiceias da autoajuda seriam desnecessárias se o mundo fosse o que elas dizem que ele é: elas são um perpétuo movimento de negação do conhecimento do real em prol da adesão cega a ele, tudo isso disfarçado de “autoconhecimento” e “autoaprimoramento”. Tragicômico.


31/08/2017

Mesmo que fosse possível provar que existem seres inteligentes “do outro lado” (num outro nível do real ao qual não temos acesso) e ainda que esses seres se comunicam conosco (ou seja, eles podem acessar nosso nível do real, mas nós não podemos acessar o nível deles, conhecendo-o apenas pelo que eles nos relatam, ou eventualmente por meio de uma viagem intermediada por eles), ou seja, mesmo que fosse possível provar que essas pessoas que alegam entrar em contato com o além realmente estão entrando em contato com o além, mesmo assim, dizia eu, esses seres simplesmente não seriam dignos de confiança (assim como não o são as pessoas que alegam falar com eles): como é uma relação marcada essencialmente por uma assimetria informacional, não temos como ratificar ou retificar o que eles dizem (não há como validar o que dizem, como verificar o contraditório), e, portanto, se acreditamos neles simplesmente damos carta branca para eles nos manipularem livremente. Mesmo que esses seres existam e queiram falar conosco, eles, por uma questão puramente topológica, merecem nosso desprezo.
A questão não é que seja inútil se envolver com esse tema por ele ser obviamente falso (como pensa o ceticismo "neoateu"/cientificista), mas sim por ele estar obviamente para além de qualquer possibilidade de validação epistemológica (ceticismo, mas no sentido filosófico do termo). 

01/09/2017

Todos os caminhos levam para fora da vida.

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O simples fato de não entrarmos coletivamente em acordo sobre o que somos já é suficiente para mostrar que não somos nada: se fôssemos algo isso ser-nos-ia imediatamente cognoscível, e portanto não haveria desacordo ontológico a respeito dessa questão. Por não sermos nada, cada um consegue inventar e acreditar em qualquer ontologia absurda, e por isso não há possibilidade de acordo.

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“Animais: se você ama uns, porque come outros?”

Esse pessoal não percebe que o amor pelos animais serve tão somente como masturbação de determinadas redes neurais (para assim sublimar instintos)? Ele nada tem a ver com uma deontologia.
Como se adiantasse alguma coisa exigir coerência das pessoas em termos de uma moralidade universal quando elas nem conseguem ser coerentes consigo mesmas... Oh pessoalzinho otimista, hein.

02/09/2017

A propensão à adoração é indicativa de afirmação do querer viver (adesão cega à autopoiese). Se existe ainda ascese verdadeira na Índia (nesse lugar onde o povo adora desesperadamente qualquer coisa), certamente ela é residual (mesmo porque se não o fosse esse país não teria a densidade populacional que tem).
Esse papo de considerar os orientais em geral e os indianos em particular um povo “altamente espiritualizado” é puro marketing para vender gurus. Como as pessoas querem acreditar que existe alguma salvação, e como é evidente que ela não está próxima a elas, o jeito é imaginar que ela está em algum outro lugar (seja distante em termos espaciais e/ou temporais). O culto á Índia que ocorre em certas subculturas no Ocidente é só mais um verbete na enciclopédia das utopias inventadas pela humanidade. 
Se o Oriente em geral e a Índia em particular fossem tão “evoluídos espiritualmente” como esse pessoal gosta de acreditar, eles não estariam integrados nessa maquina omnicida do capitalismo global. Idolatrar a Índia por causa dos Vedas é tão ingênuo quanto idolatrar a França por causa de Lacan, ou idolatrar a Alemanha por causa dos seus muitos filósofos, ou a Romênia por causa de Cioran, etc. O vulgo é o vulgo em qualquer lugar, pouco importando os sábios que conseguiram se criar no meio dele.

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Quanto mais o sistema econômico progride e quanto mais a tecnologia reificante avança, mais a maquina omnicida da autovalorização do capital torna-se autônoma, prescindido assim de seus operadores (os quais acreditam que a máquina trabalha para o bem estar deles...): quanto mais nós, humanos, corremos para sermos produtivos, mais produzimos a nossa própria redundância. Se o improvável ocorrer e tudo “der certo” (se não nos destruirmos antes), chegará o dia em que o sistema estará maduro o suficiente para se livrar de nós de uma vez por todas, e assim iniciar um novo estágio no automatismo da matéria que anima o devir.

03/09/2017

Quando se aprende a olhar por detrás das máscaras de bem resolvimento que as pessoas usam, descobre-se que todos os seres humanos são, sem exceção, essencialmente doentes. 

sábado, 12 de agosto de 2017

XXV

27/07/2017

– Você é relativista?
– Depende do ponto de vista...

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Os verdadeiros pessimistas não falam sobre seu pessimismo. Porque sabem que não adianta...

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É impressionante o contraste entre as buscas megalomaníacas da minha adolescência e a da minha juventude – em que eu me enredava em buscas insanas para ampliar o ter e o ser – com a minha situação atual (estou perto dos 31 anos), na qual boa parte do meu esforço se concentra em simplesmente adiar o inevitável colapso fisiológico do meu organismo, acompanhado de suas respectivas dores físicas (ou seja, meu esforço foca-se em manter o que já tenho e em tentar adiar sua perda).
A simples passagem do tempo nos impõem um processo contínuo de morte. Parece que passou um tempo infinito desde que eu postei o primeiro capítulo do Outsider àbeira do abismo, no entanto não faz nem dez anos ainda. 
O que eu fui já está morto. A morte, decorrente do mero automatismo da matéria no tempo, não nos acomete apenas no fim da vida: ela é onipresente e nos acompanha em cada golfada de ar. Essas conclusões eu já conhecia de ler Schopenhauer, mas agora começo a entendê-las intuitivamente.

28/07/2017

Será que, segundo as doutrinas cristãs, Jesus cagava? E cagava fedido de vez em quando? Se é para Deus vir à Terra viver como humano, isso esteve incluído no pacote, não é?

04/07/2017

O pessoal que fala em “especismo” é tão otimista que eles parecem não notar que é muito mais provável que esse conceito seja usado para legitimar o canibalismo do que para convencer as pessoas a abdicarem do consumo de produtos frutos do sofrimento animal.

05/07/2017

O bom-mocismo do senso comum repete das mais diversas formas a mesma “lição de moral” esquizofrênica que basicamente diz “faça o bem sem querer recompensa e... você receberá uma recompensa!”



06/07/2017

O esforço com que os evangelistas do otimismo buscam espargir positividade ao seu redor é diretamente proporcional ao desespero que sentem e que tentam esconder de si mesmos. Puro mecanismo de defesa do ego.



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Tipo limite.
Já faz um bom tempo que eu consigo colocar habitualmente em prática o que digo em 01/12/2016 (“Quando abandonamos as ideias de teleologia e de progresso histórico, abandonamos também as de ‘certo’ e ‘errado’, ‘pessoas melhores’ e ‘pessoas piores’, ‘pessoas boas’ e ‘pessoas más’, etc. Abandonar essas ideias é como sair da reta dos números reais e ir para o plano dos números complexos, no qual não existe mais uma hierarquia de grandeza – existem apenas diferentes e caóticas formas de se distrair enquanto a morte não chega.”): os meus julgamentos sobre os outros são atualmente horizontais e não verticais: eles indicam o quanto eu estou longe idiossincrasicamente dos outros, mas não implicam em uma hierarquização que me coloca acima ou abaixo deles (como, aliás, faz repetidamente Schopenhauer em seu livro secreto (escrito para si mesmo), publicado no Brasil com o título de A arte de conhecer a si mesmo (eu chamaria de inventar a si mesmo...)).
Imaginando as idiossincrasias dispostas em um plano complexo e as pessoas com idiossincrasias semelhantes agrupadas ao longo do plano, a minha idiossincrasia é uma dos tipos limites, que fica próxima a alguma das bordas do plano e, por isso mesmo, encontra cumplicidades em poucas pessoas, é solitária, estrangeira. Os meus julgamentos apenas apontam essa falta de cumplicidade e de identificação com os outros, mas dispensam uma hierarquia que sirva de defesa diante do desconforto da solidão.  
Essa desnecessidade de ficar atacando mentalmente os outros contribui bastante para a promoção da paz de espírito :D

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Cioran, construtivismo social, sociobilogia, eudemonismo niilista, antropologia filosófica, sexta extinção em massa, transhumanismo, Discordianismo, Gurdjieff, Greene, Icke, CNV, Thelema, antinatalismo, extincionismo, indifferens fati: ideologicamente, a minha mente é uma salada de fringes. Essa foi a consequência de “buscar complexificar minha alteridade”.
Por mais que eu me sinta só com minha alteridade complexifica, quando eu ouço os outros falando baboseiras esotéricas e otimistas eu sinto que meu sacrifício pela verdade valeu a pena.

07/07/2017

O maravilhamento com a natureza e com a ciência que desvenda seus segredos (e o culto aos cientistas disso decorrente) é o sucedâneo na ideologia cientificista (onipresente na divulgação científica) daquilo que o Deus bom é para os monoteísmos: um avatar do instinto de autopreservação, a rasgar-se em elogios à vida.

10/07/2017

A quádrupla raiz do mal:
1. autopoiese (comum a todas as formas de vida) (versão materialista da “vontade” schopenhauriana);
2. heterotrofismo (comuns a todos os animais e hipertrofiado no carnivorismo);
3. exaptação negativa da lucidez (a gênese da condição humana);
4. reificação (derivada também da lucidez, e sem ela não se tem civilizações).

Só a quarta raiz é uma construção social humana (e, portanto, poderia ser desfeita, como sonham os utopistas), as outras três pertencem ao domínio da biologia/corporeidade (a terceira até é em parte cultural, mas sem ela somos animais como quaisquer outros, logo se abdicarmos dela estamos abdicando da condição humana). A vida primitiva não era agradável, e provavelmente por isso as pessoas foram voluntariamente construindo a civilização. Talvez as coisas agora estejam piores (difícil avaliar, eu teria que ler muita antropologia para dar um palpite), mas não teríamos como voltar atrás sem abdicar dos confortos materiais que a civilização propicia (isso ignorando o fato de que a atual civilização já está em uma mórbida relação de simbiose parasítica com a natureza: se a civilização fosse parada de um dia para o outro, teríamos chacoalhões nos sistemas naturais que iriam destruir boa parte da vida humana, talvez toda ela; tem ainda todo lixo radioativo que produzimos e que precisa ser administrado por alguma civilização... ou seja, estamos num trem desgovernado em alta velocidade rumo à catástrofe, e não há como pará-lo antes dele atingir o desastre final).
Utopistas sempre colocam a origem do mal no domínio da história cultural humana, para assim poderem sonhar com a reversão do processo (por exemplo, culpam a invenção dos gêneros, da propriedade privada, da religião, do Estado, etc.). Parecem não notar que o processo não teria sido realizado diuturnamente pelos seres humanos se eles não tivessem um ganho com isso: as pessoas não iriam produzir ao longo de séculos, ou mesmo milênios, condições de vida piores se não ganhassem algo com isso. Chuto que o que ganhavam, e que ainda ganhamos, com isso é o conforto material, o qual não tem como ser produzido sem divisão social do trabalho, e, portanto, sem reificação. Ou seja, se chegamos até aqui, foi perseguindo a satisfação de determinadas necessidades que as condições primitivas de vida eram e são incapazes de satisfazer: a vida anterior à Queda também era ruim, do contrário não teríamos nos aventurado para longe dela.

Eu gostaria de escrever um ensaio desenvolvendo essa ideia da quádrupla raiz do mal, mas nunca terei tempo para priorizar isso (há muito material para ler e para pensar a respeito), dado que escolhi outras prioridades na minha vida em vez das elucubrações intelectuais.

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A CNV (Comunicação não violenta), portanto (continuando aqui o raciocínio do fragmento anterior), ao querer, no limite, restabelecer a mentalidade humana primitiva (anterior à reificação) (como diz Rosenberg, “conectar-nos com a forma natural de pensar”), é incompatível com a qualquer civilização. Alguém que tenta usá-la diuturnamente está produzindo a sua própria desconexão com a civilização em que vive, o que trará a si consequências matérias (a menos que a pessoa seja herdeira, ou vire mendiga, ou eremita, ou resida em uma comunidade alternativa, etc.).
Eudemonisticamente, e é esse meu interesse, a CNV pode ser útil se utilizada instrumentalmente para lidar consigo mesmo, com pessoas com as quais temos relações íntimas e, eventualmente, com pessoas com as quais convivemos (colegas de trabalho, vizinhos, trabalhadores que prestam serviços a nós, etc.). As pessoas que se aproximam da CNV por causa da utopia que ela alimenta (e a maioria o faz), ou as pessoas que se aproximam pensando em melhorar suas vidas mas que se deixam seduzir por essa utopia, estão condenadas a pegar uma ferramenta que poderia melhorar a vida delas e transformá-la numa fonte de sofrimento para si mesmas.

11/07/2017

Sentido físico do universo: aumento da entropia;
Sentido moral do universo: nenhum;
Sentido físico da vida: autopoiese;
Sentido moral da vida: nenhum.

Schopenhauer diz, capítulo VIII, §109, de Parerga e Paralipomena, o seguinte:

"Que o mundo possui apenas uma significação física, e nenhuma moral, constitui o maior, o mais condenável, e o mais fundamental erro, a própria perversidade da mentalidade, e provavelmente forma no fundo aquilo que a fé personificou como o anticristo. Contudo, e a despeito de todas as religiões, que em sua totalidade afirmam o contrário, o que procuram fundamentar à sua maneira mítica, este erro fundamental nunca desaparece inteiramente do mundo, mas, de tempos em tempos, sempre ergue novamente sua cabeça, até que esta é novamente forçada a se encobrir pela indignação geral."

Erro fundamental? Indignação geral? Não percebe Schopenhauer o perigo de recorrer ao arbítrio do vulgo como fiel da balança? Essa verdade fundamental desagrada ao vulgo porque é incompatível com a realização da autopoiese (nas palavras de Schopenhauer, com a afirmação do querer-viver), e, por isso, deve ser negada. Não percebeu Schopenhauer a contradição entre o conhecimento e a vida? Percebeu, mas por que aqui parece não notar isso? Isso que dá levar Platão a sério, com seu blá-blá-blá de identidade entre verdade, bem, virtude, beleza... O fato da massa, formada por meras máquinas autopoiéticas (para usar a linguagem schopenhauriana: pessoas cujo intelecto não está em nada emancipado da vontade), não aguentar essa falta de sentido moral para a vida deveria ser uma evidência de que essa falta é justamente a verdade.
Sem perceber, aqui Schopenhauer se comprometeu com a afirmação da vontade que ele tanto demonizou. Isso que dá ser um idealista.