sábado, 6 de maio de 2017

VII

25/10/2016

Tanto o “despertar” dos trabalhos de Gurdjieff quanto a não-violência da CNV implicam em uma lentidão responsiva, a qual é consequência direta da tentativa de tornar consciente conteúdos inconscientes, o que apenas pode se dar por processamento cerebral consciente adicional em relação ao que se faz usualmente em nossa sociedade. Assim, esse despertar e essa não-violência são disfuncionais por excelência com a dinâmica de nossa sociedade – só quem vive à margem dela pode se dar ao luxo de mergulhar nessas práticas (que, em última instância, não cumprem com as vagas promessas que vazem). Aliás, deixar as promessas vagas é essencial para grupos esotéricos – é nesse espaço indefinido que cada um inventa as expectativas que lhe convém, só para descobrir, depois de muita dedicação, que essas expectativas nunca se realizarão (mas aí a pessoa já se esforçou tanto pela causa que prefere continuar aderida a ela). No caso do Gurdjieff, por exemplo, ele nunca respondeu se existe ou não reencarnação. Isso quer dizer que as pessoas devem se sacrificar pela causa do “despertar” sem nem saberem exatamente para que ela serve: serve para sair do ciclo de reencarnação? Serve para ir para um outro nível da realidade no pós-morte? Gurdijieff recusa-se a dar essa resposta – e seus seguidores aceitam.

26/10/2016

A ontologia é o caminho para contornar a inesgotabilidade fenomenológica e o flooding informacional de notícias e obras culturais: se eu já tenho uma ontologia que explica as linhas gerais de todos esses casos particulares, não sinto necessidade de neles mergulhar para tentar entendê-los, e assim eles se tornam redundantes.

Hipótese: é justamente a minha fixação pela ontologia (a qual, por exemplo, determina o meu desprezo em ler literatura) que, dando conta da polissemia fenomenológica, permite-me resolver os meus problemas existenciais, enquanto assisto os demais andarem em círculos em torno dos seus. 


VI

15/10/2016

Aprimorando o conceito de Nietzsche de além-do-homem

No livro “O niilismo”, p. 63, Franco Volpi faz a seguinte citação de Nietzsche: “O caráter global do mundo é o caos pela eternidade”. Para aí logo emendar: “Quem será capaz de suportar esse terrível pensamento que parece tornar a existência insuportável? O ‘super-homem’”.
É só isso que precisa para ser um super-homem? Se é, então eu sou um e conheço vários. Não sei se é só isso mesmo que segundo Nietzsche é necessário para ser um além-do-homem, porque não estudo esse autor nem pretendo perder meu tempo fazendo-o. Mas parece-me que o conceito de “suportar” é insuficiente, principalmente quando se está em questão o especular sobre uma sociedade de “além-dos-homens”.
Ora, se falamos de uma nova coletividade humana (uma utopia, obviamente), não podemos deixar de envolver a questão da AUTOPOISE DA ESPÉCIE. Schopenhauer, quase sempre superior a Nietzsche, deixou bem claro que a negação do querer-viver é marcada por uma castidade voluntária. Nietzsche parece não incluir o compromisso com reprodução da espécie na sua lista de atributos do super-homem porque, imagino eu, se o fizesse não poderia enaltecer a si próprio como o primeiro exemplar de uma nova espécie de seres.
O que eu pretendo aqui é melhorar, especificar, essa definição do além-do-homem à luz da autopoiese, da afirmação do querer-viver. Nietzsche, com seu obscurantismo teatral, fez uma enorme confusão com essa questão, como com tudo o mais.

Assim sendo, o além-do-homem teria as seguintes características:
1. Assume que a vida não tem um sentido teleológico, que seu em-si é autopoiese (ou qualquer outro nome para isso, como a vontade em Schopenhauer, ou a vontade de potência em Nietzsche).
O que Volpi define por “suportar” incluiria tudo o que se segue, todos compromissos com a autopoiese (ou seja, o além-do-homem se caracteriza por ter superado o impasse entre lucidez e autopiese, em outras palavras, se caracteriza por levar a cabo, no domínio da plena lucidez, a autopiese até então realizada na história da vida sob o domínio da inconsciência):
2. Compromete-se com a autopoiese nos seus três níveis: individual, societal e da espécie. Essa adesão se caracteriza por ações concretas (não por mero aceite no nível teórico/ideológico, como aliás já indica Schopenhauer no §56 do tomo I dO mundo...) para a produção da autopoiese. No domínio individual, significa não se matar e cuidar de si (não se matar lentamente como fazem boa parte dos niilistas que não superaram o aspecto lúgubre da descoberta da falta de sentido na vida). No domínio societal, implica em trabalhar (e caso se viva de renda, em se preocupar em dar algum retorno à sociedade desse ócio por ela financiado – como fez Schopenhauer), não ficar louco (como ficou Nietzsche) (pois uma sociedade de loucos não funciona – os loucos precisam ser sustentados pelos sãos), e em se envolver nas questões políticos-ideológicas da época (é aqui que eu paro de me comprometer com a autopoiese e, portanto, não posso – junto com o próprio Nietzsche – ser considerado um além-do-homem), sem cair em um utopismo (pois ao cair em um caiu-se nas garras de um sucedâneo de deus e de uma nova teleologia, e saiu-se do niilismo). No domínio da espécie – e isso é essencial se se está falando de uma suposta sociedade de super-homens e em uma nova fase para o Ser – o compromisso é representado pelo TER FILHO(S). Quanto a esse envolvimento com a procriação, eu faço exigências adicionais para ele ser considerado indício de um super-homem:
2.1 A gravidez deve ser planejada (obviamente não conta gravidez fruto da irresponsabilidade animal: o além-do-homem está para além do homem, é algo superior ao homem, não pode se caracterizar por uma regressão à animalidade (essa regressão, por sua vez, é a uma “salvação” para Cioran, já que ele nega, ao meu ver com acerto, a validade desse delírio chamado super-homem)).
2.2 A pessoa não pode ser rica nem ter um emprego garantido (por ser um “fodão” de sua área). Por que é fácil procriar quando não se está em jogo grandes sacrifícios pessoais. Isso significa que essas pessoas ricas e com emprego garantido já estão a priori descartadas como além-do-homem: mesmo que preencham todos os outros requisitos, apenas se aproximam do que seria um além-do-homem, pois o que caracteriza esse indivíduo é a coragem, a virilidade: que coragem e virilidade pode haver quando a sobrevivência material sua e de sua prole já está garantida? Assim é fácil né...
2.3 A pessoa não pode ter se arrependido da decisão de ter procriado. Se arrependeu-se, não é além-do-homem: é só alguém imaturo o bastante para tomar uma decisão dessas sem conhecer a si mesmo e à vida o suficiente.
2.4 Por fim, no caso de pessoas inférteis ou homossexuais, essa adesão à procriação se dá por meio do “pegar para criar” crianças frutos de relações sexuais alheias.

Não conheço ninguém que atende a todos esses requisitos. Os poucos niilistas que conheço, mesmo os que superaram o aspecto lúgubre do niilismo, não querem ter filhos, seja por empatia com o sofrimento de quem nasceria, seja por utilitarismo (por calcular que o custo de ter filho(s) não cobre os benefícios). As exceções são pessoas que não preenchem o item 2.2 – como o caso de Richard Dawkins (o qual, além do mais, pode até ser descartado como niilista, por estar envolvido no milenarismo neoateu). Se um Pirulla, por exemplo, tivesse filho(s), ele preencheria todos os requisitos. Imagino que até existam pessoas que preenchem todos, mas são exceções que estão muito longe de sinalizar para o dealbar de um novo mundo.


  

V

04/10/2016


O cristianismo não é negação da vida – não na sua forma institucionalizada. Nenhuma instituição surge e prospera, ainda mais por quase 2.000 anos, se não servir à autopoise. O que o cristianismo faz, e junto com ele o utopismo (ou “platonismo”, como diria Nietzsche) em geral, é sinalizar para uma negação do mundo, colocada como objeto a, para assim distrair a consciência do sofrimento proveniente do mundo real e assim promover a sua aceitação – ou seja, a aceitação e a afirmação da vida. É como se o paraíso cristão (e as demais utopias) fossem a cenoura que faz o cavalo se mover, e a estrada na qual ele anda fosse a vida (o mundo negado pela cenoura): é a esperança de um dia atingir essa negação do mundo (comer a cenoura, conseguir o objeto a) que move o cavalo no mundo real, que o motiva a aceitá-lo apesar dele ser-lhe desconfortável, ou mesmo horroroso. Também aqui Nietzsche erra e Schopenhauer acerta: Schopenhauer identifica o cristianismo primitivo (ainda não institucionalizado) com a negação da vida e identifica o institucionalizado com a afirmação, com o otimismo e com o “retorno ao judaísmo”.




10/10/2016


Inútil querer entender as razões dos outros, sendo que nem eles as entendem.

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“Se amar bastasse, as coisas seriam simples. Quanto mais se ama, mais se consolida o absurdo.” (Camus, em O mito de Sísifo)

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Para mim, o interesse das pessoas por política e por discussões ideológicas é uma mistura de: 1) defesa de seus interesses matérias, ligados à sobrevivência (necessidade), ao conforto (utilidade) e ao luxo (desperdício conspícuo); 2) (pre)ocupação com a coisa pública (a parte altruísta da motivação); 3) vontade de controlar a coisa pública (vontade de poder) e assim 4) enfraquecer a voz daqueles que pensam diferente (aversão à alteridade e tendência à confirmação da própria crença); 5) supervalorização a respeito da própria importância na sociedade e para a história da humanidade (auto-messianismo); 6) supervalorização da própria capacidade de conhecer a verdade factual e de julgá-la em nome dos próprios interesses e dos interesses coletivos; 7) absolutismo ideológico (crença de que sua visão de mundo é a verdade absoluta, e que se ela for adotada pelo resto da sociedade a utopia seria instaurada) e 8) o fanatismo dele decorrente; 9) a fidelidade a um grupo, dentro do qual consegue-se reforçar os mecanismo de defesa do próprio ego; e, por fim, 10) arranjar algo para distrair o vazio da existência (“arranjar sarna para se coçar”). Dependendo da pessoa e do momento, é uma característica diferente dessas que prepondera.

Esse "vazio da existência” é, para mim, como é percebido internamente pelo indivíduo a falta de objetos de desejo, e portanto a falta de sublimação das energias corporais que sobram da luta diária pela sobrevivência; quanto menos se precisa lutar pela sobrevivência, mais energias sobram e maior será a sensação de vazio. Nossos corpos são máquinas fruto de um processo de 4 bilhões de anos de seleção natural. Eles são um amontoado de algoritmos autopoieticos, cujo o fim é somente sua autoreplicação – (re)produção, de si e da espécie (via procriação). Quanto mais facilitada a vida em virtude do ócio e dos confortos da civilização, mais energias sobram e precisam ser sublimadas via distração. Como não existe nenhuma destinação natural para essa energia que sobra, qualquer destinação será por definição fictícia, delirante. Discutir política, literatura, filosofia, ver televisão, etc., são apenas diferentes estratégias para eludir o vazio.

14/10/2016

Ando me especializando em não ter opinião. Isso não é fácil, dada a nossa tendência a querer ter opinião sobre tudo. Agora, eu só me disponho a opinar sobre o que estudo, e só estudo o que me diz respeito direto (pois indiretamente tudo me afeta, e não há recursos disponíveis para estudar tudo).

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A minha aceitação da vida e do mundo é antes fruto de um cansaço em estar frustrado do que fruto de um amor sado-masoquista (fui ao indifferens fati  a partir do odium fati). Estar frustrado é cansativo e estressante, é incompatível com os meus quatro objetivos: longevidade, bem-estar, empregabilidade  e patrimônio econômico. Claro que esse cansar-se foi facilitado pela idade (fim da adolescência) e pela conquista de um padrão de vida relativamente confortável. A melhor palavra para descrever o resultado desse cansaço é “resignação”: pois não se trata de uma renúncia à visão do mundo como sendo essencialmente mal, mas um renúncia – uma desistência – ao opor-se a esse mal.

Da forma como eu mesmo categorizo, a minha aceitação é parcial, dado que eu só estou comprometido com a minha própria autopoiese, mas não com a da sociedade nem com a da espécie (comprometimentos esses que eu considero essenciais tanto para definir tanto o amor fati quanto para definir o além-do-homem).

IV

29/09/2016

A título de "rudimento de pesquisa empírica": se vc digitar "Nietzsche" no catálogo do Estante Virtual aparecem 8373 títulos. Se digitar "Schopenhauer" aparecem 1446 (17,27% do de Nietzsche). Se digitar "Cioran" aparecem 107 (1,28% do de Nietzsche). Eu, particularmente, me identifico muito mais com Cioran do que com Schopenhauer, e muito mais com Schopenhauer do que Nietzsche. Esses número indicam que a identificação do "mercado literário-filosófico" no Brasil é inversa a minha. Há uma curva exponencial separando a popularidade desses 3 pensadores.

Se fizer a mesma pesquisa na Livraria Cultura, dá: N=2016, S=864 (42,86% de N) e C=144 (7,94% de N).

30/09/2016


Uma utopia global demanda a produção de transhumanos (de um tipo específico: manipulados geneticamente para superar os paradoxos humanos). Só que para aplicarmos a biotecnologia em seres humanos, precisamos AUMENTAR a reificação dos seres humanos em relação ao nível de reificação aceitável na hegemonia ideológica atual. Ocorre que, do ponto de vista político, uma utopia planetária demanda uma DIMINUIÇÃO desse mesmo nível de reificação. Assim, a reificação teria que aumentar para permitir a reengenharia da natureza humana e simultaneamente para permitir a construção de uma democracia global. Ou, teria que primeiro aumentar, viabilizando o uso de biotecnologias em humanos e depois que os ditos transhumanos surgissem aí teria que diminuir para níveis inferiores aos atuais. E todo esse processo teria que ocorrer ao mesmo tempo que construímos com a natureza uma homeostase sustentável: a civilização teria que sobreviver a esse aumento da reificação, teria que superá-lo e a própria natureza que exploramos teria que agüentar uma exploração adicional decorrente desse recrudescimento da reificação. Tudo isso parece bemmmm improvável.

Se o progresso tecnológico continuasse e resolvesse a crise ambiental – o que eu não acredito ser possível, pois já passamos do ponto de não retorno ou estamos muito perto de passá-lo –, cedo ou tarde chegaria o dia no qual qualquer adolescente teria o poder de fazer, em sua casa, nanobots cuja autopoiese fosse um fim em si mesmo, e assim destruiria toda vida na Terra, pois esses nanobots se replicariam até destruir tudo (ou até liberar o metal derretido que está abaixo da superfície, o que mataria eles próprios). É fácil notar que não só a nossa extinção é tautológica, mas também o é a nossa auto-extinção.

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Goku não morreu para nos salvar. A “Terra” que ele salvou e salva repetidas vezes tem tão pouco a ver com a nossa que talvez ela seja uma versão do que a nossa seria daqui uns 20.000 anos se as coisas “terminarem bem” (o que eu não acredito que acontecerá). Apenas alguns pontos em comum, como a presença de seres humanos (especificamente Homo sapiens, que que no desenho há humanos de outras espécies, incluso o rei do governo mundial – que é um cachorro azul humanóide) e aspectos culinários da cultura japonesa (além do clima de seriado adolescente estadunidense que aparece quando Gohan freqüenta uma high school), podem ser usados para indicar que se trata do mesmo planeta que o nosso (seja no futuro, seja em um universo paralelo). Por falar em universo, fica claro em vários episódios que no universo do desenho não existe a impossibilidade de corpos massivos viajarem mais rápido do que a luz. Será que Goku se disporia a salvar a nossa Terra e o nosso universo se realmente vivesse neles?

O retrato ideológico que Dragon Ball Super faz da humanidade – no qual um deus enfurecido (Zamazu) com o uso que os humanos fazem do conhecimento decide destruí-los – é o exato oposto de nossa verdadeira condição: usamos o conhecimento para nos matar e somente uma intervenção divina poderia nos salvar de nós mesmos.

III

20/09/2016

Boa parte do que chamamos de “cultura” – e toda a indústria do entretenimento – basicamente envolvem uma masturbação sem fim do instinto sexual, dos instintos de luta-e-fuga, e de demais algoritmos de nossa animalidade (todos ligados à autopoiese). São uma forma de sublimarmos a energia (no sentido físico da palavra: capacidade de realizar trabalho) que “sobra” em relação à autopoiese da vida mais imediata – essa energia precisa ser sublimada para manter a saúde dos indivíduos e a estabilidade das instituições sociais (e dos poderes estabelecidos – e aí que a cultura, em especial a religião e a indústria do entretenimento, engloba as técnicas de administração das massas). Essa energia “sobra” justamente porque com o desenvolvimento da divisão social do trabalho e da tecnologia a produção da autopoiese da vida mais imediata é facilitada: assim, quanto mais desenvolvida uma sociedade, mais energia sobra para ser sublimada no domínio da cultura. Como essa pulsão por definição não possui uma destinação biológica (correspondente a alguma função biológica, para além da autopoiese), qualquer destinação para ela será por definição fictícia: enchendo assim o domínio da cultura de um acervo inesgotável de delírios. É essa ausência de destinação natural para essa energia que é sentido subjetivamente pelos indivíduos como VAZIO.

Na religião, os mundos escapistas imaginados são apresentados como o “mundo real”, do qual esse aqui é uma sombra; na indústria do entretenimento não se tem essa pretensão: ela está explicitamente comprometida com o irreal. Por caminhos em parte opostos, ambas buscam fugir da opressiva banalidade do verdadeiro. A se depender dos avanços tecnológicos, os delírios da indústria do entretenimento estão apenas começando. 

21/09/2016

Aporias do animal paradoxal:
Trade-off da intolerância:
Ou toleramos o mundo tal qual é (com todos seus horrores, incluso os que sofremos), ou sempre acabamos por ser intolerantes com algum tipo de pessoa: se admitimos que o mundo não vai bem, acabamos caindo na tentação de explicar o porquê disso, e ao fazê-lo inevitavelmente alguém será vilanizado. A única forma de “não ser intolerante” é não culparmos ninguém, o que deriva de não reconhecermos que as coisas vão mal no mundo, o que significa tolerá-lo tal qual ele é, incluso com o nosso próprio sofrimento pessoal.
Trade-off da (des)crença:
Se somos adeptos de uma crença, por um lado acreditamos que o mundo pode ser melhor do que é e que o (nosso) sofrimento tem algum sentido, porém entramos em dissonância cognitiva toda vez que nos deparamos com evidências de que essa crença não se sustenta.Muitas vezes essa evidência vem na simples existência de alteridades tão ou mais funcionais do que a nossa mas que não compartilham de nossa crença. É essa dissonância cognitiva ante nossas verdades (que queremos absolutas) que está na origem dos conflitos ideológicos: queremos calar o outro para, em eliminando-se a sua alteridade, forçarmos as evidência em prol da crença que professamos. A intolerância é consequência da tendência à confirmação inerente à qualquer crença.
Se somos niilistas, céticos radicais de dispensam qualquer crença como ilusória em um mundo sem remissão possível, não entramos nesse tipo de conflito, porém estamos condenados a (tentar) viver sem um “sentido” para o (nosso) sofrimento. Dado que as crenças possuem efeitos sedativos ante o mal-estar inerente à existência, não é impunemente se pretende viver sem crenças. 

22/09/2016

No meu "passado marxista" eu tendia a acreditar muito mais no "poder de manipulação" da mídia, no sentido de imaginar q é ela que torna as pessoas medíocres. Hoje em dia, vejo essa mediocridade como estrutural da e funcional para sociedade, construída antes de mais nada pela assimetria de apropriação dos valores de uso, e em segundo lugar como decorrência superestrutural da manutenção do establishment plutocrata. Mas não se trata de mera conspiração de um grupo de pessoas más: em última instância, tudo isso é decorrente de nossa natureza animal eternamente insatisfeita e contraditória por excelência. A relação entre mídia e público na produção da mediocridade é dialética: a mídia oferece o que as pessoas querem e as pessoas aprendem a querer o que a mídia oferece (um conteúdo basicamente escapista, pautado por uma fuga permanente da realidade - o que desde sempre acompanha a humanidade, vide a religião). Hoje em dia, mesmo com muita informação qualificada disponível gratuitamente na internet, as pessoas escolhem a mediocridade. Transformaram voluntariamente o YouTube em uma TV, etc. Não é culpa só dos Illuminati não, rs

As pessoas não querem saber a verdade, não querem se comprometer com uma investigação sobre esse assunto. Mas ao mesmo tempo querem opinar e ter razão sobre tudo. O espetáculo de mediocridade intelectual dentro e fora das redes sociais não poderia ser outro com seres humanos assim

Esses problemas decorrentes da assimetria na apropriação de valores de uso supostamente poderiam sumir se tivéssemos alta tecnologia para diminuir a escassez desses valores. Ocorre que com o avanço da tecnologia avançam também as possibilidades de desejos que podem ser realizados, de tal forma que a escassez continua praticamente a mesma. Isso porque cada um de nós tem uma capacidade inesgotável de desejar. Assim sendo, nenhum progresso tecnológico será um dia suficiente
Portanto, enquanto houver "povo" e "massa", vai haver essa mediocridade. Só poderemos nos livrar, como civilização, do povo e da massa, quando todo o 'trabalho duro", medíocre e mecânico tiver sido autorizado. Mas aí o que fazer com bilhões de pessoas sobrando? Fora os impactos ambientais da tecnologia... Enfim, eu não acredito na possibilidade de "solução" para esses impasses. As utopias políticas são a versão societal do "objeto a" lacaniano que nos move à ação. São por definição inatingíveis

Acredito que a mediocridade continuará mesmo com alta tecnologia - vide as sociedades em Star Wars - e que, cedo ou tarde (mais cedo do que tarde), nossa civilização ruirá (e mesmo nossa espécie será extinta) muito antes de conseguir sair desse planeta

II


11/07/2016

É o que resta de barbárie em uma sociedade em processo de pacificação e de "evolução moral" que ainda a protege de ser engolida pela barbárie externa. Portanto, são as forças bárbaras internas ao mundo Ocidental – corporocracia maquiavélica, militarismo, anarcocapitalismo, neofascimos, fundamentalismo evangélico, reacionarismos vários – que protegem o Ocidente de não ser engolido pelo barbarismo da Rússia, da China e dos fundamentalistas islâmicos. Se a parte da população ocidental ainda bárbara “evoluísse moralmente” e se tornasse pacífica, não haveria ninguém para fazer o trabalho sujo para defender “o estilo de vida ocidental” diante da vontade de poder externa.

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Duas características básicas de qualquer conteúdo cultural discursivo que se pretenda profundo: abordar o lado sombrio da vida (a morte, a guerra de todos contra todos, a irracionalidade, as privações, o acaso, etc.) e faze-lo sem maniqueísmo. 

14/08/2016

Em algum lugar, Cioran diz que “no fim da adolescência, se é fanático por definição”. O que se segue é uma especulação sobre a cibernética psicológica envolvendo o fanatismo juvenil.
Quando se é criança, tem-se poucas responsabilidades e muitos sonhos de um futuro glorioso. Quando se está na adolescência, as cobranças para se sustentar e se inserir na divisão social do trabalho aumentam, ao mesmo tempo em que se ganha cada vez mais consciência das dificuldades de se realizar os sonhos infantis. “Pouco a pouco, estabelece-se a certeza da limitação do mundo”. Essa “hipertrofia da consciência” em conjunto com o início da liberdade-responsabilidade pela própria existência e pelas próprias escolhas levam a um aumento do mal-estar existencial: por isso é tão comum sentir-se saudades da infância.
Esse aumento de mal-estar alimenta o desejo de superá-lo, donde surgem as utopias: ficções que prometem eliminar nossa aporia fundamental, fundante do “animal paradoxal”, e promover um bem-estar permanente. As ideologias são as filhas da utopia: descrevem quais são os problemas existentes no mundo que precisam ser superados, e descrevem como fazê-lo. O fanatismo surge de uma adesão convicta a alguma utopia-ideologia, adesão essa que é diretamente proporcional ao mal-estar, o qual é tão intenso quanto tão intensas são as frustrações das perspectivas infantis.
Com o amadurecimento, com o tornar-se adulto, o indivíduo tente a se resignar em parte ante essas limitações do mundo que descobriu em sua adolescência. Quanto mais maduro mais resignado e quanto mais resignado, menos fanático, pois menor é o mal-estar em face da dissonância entre o que o mundo é (real) e o que se gostaria que ele fosse (ideal).
Isso são linhas gerais, não quer dizer que todo adolescente é mais fanático que todo adulto. Mesmo porque certos adultos se especializam no fanatismo: eles tendem a ser líderes dos movimentos utópicos-ideológicos, sejam eles ligados ao questionamento dos poderes estabelecidos, sejam promotores do establishment. Os adultos que não são ideólogos profissionais tendem a ficar menos fanáticos com o tempo, pois pouco a pouco vão se resignando com as limitações do mundo.
Resumindo:
Na infância não se tem consciência das limitações do mundo, e não se tem muita liberdade e responsabilidade.
Na adolescência ganha-se essa consciência e luta-se contra essas limitações, além de ter que se lidar com o fardo da responsabilidade (contrapartida da liberdade).
Na adulticidade/maturidade/velhice resigna-se com essas limitações. 

12/09/2016 

Sobre o humor negro
Como de costume, quando falamos do outro, falamos também de nós mesmos. Eu lido com esse "humor negro hiper pesado" interpretando esse tipo de comportamento como indício de imaturidade emocional: ri-se do sofrimento alheio por ser incapaz de empatizar com ele. É uma estratégia de defesa, de afastamento da dor alheia, com a qual não se consegue lidar. Não surpreendentemente, esse tipo de humor é encontrado principalmente em homens jovens. No mais, toda a nossa existência é uma piada de mau gosto mesmo, e ninguém tem maturidade emocional para enfrentar a realidade de cara limpa. Destruídos todos os escapismos, o que resta? Também é o humor negro um escapismo, uma tentativa de se defender do horror que está em toda parte – não somos todos animais eternamente insatisfeitos, que não pediram para nascer mas que estão condenados à morte? Pelo menos o humor negro reconhece esse horror, e ri dele, em vez de fingir que ele não existe: ao fazer isso, já deu um passo além da mediocridade açucarada do senso-comum.

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A utopia política é, junto à arte, um dos ópios dos intelectuais.

I

15/06/2016
"Mas escrever é expulsar de si tudo o que havia de importante. Portanto, quem escreve é alguém que se esvazia." (Cioran)
"Se você não escrever diariamente, os venenos se acumularão e você começará a morrer, ou a enlouquecer, ou ambos." ("O Zen e a Arte da Escrita - Ray Bradbury)
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Um cético não toma a decisão de se matar (fora em caso de eutanásia em face a severas limitações corporais), pois uma decisão como essa é embasada na crença de se possuir um conhecimento suficiente sobre o que é a vida e o que é a morte – crença essa que o cético não possui. Como diria Cioran, "o suicídio é um ato de fé".  

28/06/2016
Eu: uma vítima da ideia de "sentido" (enquanto síntese das ideias de “verdade” e de “salvação”).

29/06/2016


Proposição: nem amor fati nem odium fati: mas indifferens fati, “apafatismo”.

"Quando conhecemos o equilíbrio, não nos apaixonamos por nada, não nos apegamos nem à vida, porque somos a vida" (Cioran, em História e utopia).

09/07/2016

Trade-off da alteridade
Ao buscar aprofundar-se em sua alteridade (e na sua respectiva ideologia), se você apresentar suas visões de mundo para as pessoas elas reagirão com alguma agressividade (em especial se você mesmo já apresentar a sua visão de forma agressiva), pois o que está em jogo é a estabilidade dos mapeamentos cognitivos delas (e do seu) e, portanto, o conforto egoico de todos os envolvidos. Se você não buscar apresentar a sua visão a elas (apresentação essa que no fim sempre remete a uma tentativa de educá-las a sua imagem e semelhança, de reproduzir a sua visão nos outros, colonizando-os e tornando-os mais parecidos com o você é ou gostaria de ser, e assim reafirmar para você mesmo a correção dos seus valores e opiniões), elas só vão ser indiferentes a esse "cara estranho". Em ambos os casos você termina sozinho. É claro que, no fundo, estamos sempre sozinhos, mesmo que rodeados de gente superficial e simpática: o que muda é a intensidade dessa solidão e da percepção do abismo que há entre todas as pessoas-ilhas. É um trade-off: não há como ser "o diferentão" e ainda se sentir bem em meio às "pessoas comuns" (sendo bem recebido por elas ao exibir sua alteridade), em especial quando se adota um discurso de vilanização dos outros como explicação para a gênese das dores do mundo: por que os outros seriam receptivos a isso, à acusação de que eles são o problema e precisam mudar em direção ao que você já é ou quer ser para aí o mundo ser um lugar melhor? Não há como ter as duas coisas: ou se decide aprofundar-se em sua alteridade ao custo de aumentar a solidão, ou se goza da companhia dos outros ao custo de não aumentar a diferenciação de sua personalidade em relação a deles. A escolha é sua.

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Trade-off da (in)tolerância
Por que alguém se dedicaria diuturnamente, de corpo e alma, a uma ideologia/religião/causa se não acreditasse que ela está atrelada à verdade absoluta? Por outro lado, a simples existência do diferente já é ofensiva para quem acredita ter as chaves para a verdade absoluta, para a salvação e para o bem-viver – pois instaura uma dissonância cognitiva que indica que esses valores aos quais se dedica tanto esforço talvez não sejam tão absolutos assim (e de fato não são), afinal outras pessoas parecem viver tão bem, senão melhor, sem eles ou mesmo acreditando em valores opostos. Mas acreditar no relativismo cultural, aceitar que a crença do outro é tão legítima quanto a minha, destrói o fanatismo que é a base da minha dedicação: sem o fanatismo, não há obsessão e portanto não há porque se dedicar a causa alguma.
A existência de uma hierarquia de autoridades ligadas à autopoise de qualquer discurso é a evidência de que ainda existe uma massa de pessoas que toma esse discurso como uma verdade absoluta e que, por isso mesmo, está disposta a dedicar os seus recursos escassos (tempo, energia, dinheiro, saúde) à causa. Não que a culpa seja dos líderes: idólatras por instinto, as pessoas estão à procura de verdades absolutas, de mapeamentos cognitivos que lhes garanta sem dúvidas o que o mundo é, para onde ele vai e o que elas devem fazer para se darem bem: os líderes só oferecem o que a massa neurótica quer: certezas.
Se o relativismo cultural e o Estado Laico, que garantem a liberdade de fé e pensamento, fossem de fato aceitos pelos proselitistas, suas fés desmoronariam: sendo equivalentes e intercambiáveis, sendo ficções úteis, por que se dedicar a elas? Como escolher a melhor? Como viver com da dúvida? O resultado disso é uma situação esquizofrênica, na qual o proselitista alega, para ser politicamente correto, respeitar a opinião dos outros, mas na verdade acha que só ele tem razão e que todos os outros estão errados, inventando argumentos intermináveis para criticar e vilanizar os seus oponentes (todos aqueles que não dispõe de sua fé).