sábado, 19 de março de 2022

XLI

 

03/03/22

De longe, só pela aparência e pelo comportamento público, já acho a maioria dos humanos desprezíveis. E, quanto mais conheço os detalhes da vida de alguém, mais decepcionado eu tendo a ficar. Mas ainda assim, diferentemente de Cioran, eu não chego a ter uma aversão à ideia de ser humano: não sei o motivo, mas tenho apenas uma aversão aos humanos concretos, que conheço empiricamente, mas não à ideia de humano. Ainda assim, mesmo sem esse desprezo à ideia de humano, há uma parte minha que fica feliz com a ideia da extinção humana (não por causa do desprezo à ideia de humano, mas pelo desprezo aos humanos que de fato existem em suas múltiplas imperfeições).


05/03/22


Sobre a acupuntura e demais tratamentos alternativos


1. Não faz sentido biológico a existência dos pontos.

2. Não há exames (tipo uma ultrassonografia ou um raio-x) que detectam os pontos: porque eles simplesmente não existem, não correspondem a nenhuma estrutura física mensurável.

3. Mesmo que existissem, eles não estariam exatamente nos mesmos pontos em todas as pessoas (haveria diferenças milimétricas, o que é muita coisa quando se está falando de acertar um ponto com a ponta de uma agulha).

4. Mesmo que estivem no mesmo lugar em todas as pessoas, não há garantia de que os profissionais estão acertando esses pontos, porque, novamente, esses pontos não correspondem a nenhuma estrutura física, material, observável (como, por exemplo, um vaso sanguíneo ou um nervo).

5. Mesmo que estivessem acertando o ponto com a agulha, não faz sentido que colocar uma agulha no ponto superficial da pele teria qualquer efeito de homeostase/cura.

6. Mesmo que, com tudo isso, a acupuntura funcionasse, os estudos científicos mostrariam que funciona, pois as alegações da acupuntura são passíveis de testagem pelo método científico.

7. Mesmo que haja estudos que apontem algum efeito estatisticamente relevante da acupuntura, não é o que mostram as meta-análises.

8. Justamente por isso, já no primeiro parágrafo do artigo da Wikipédia sobre o tema, a acupuntura é classificada como pseudociência.

9. Quem acha que a acupuntura é científica simplesmente não entende o que é a ciência, ou entende e é mau-caráter, ou ambos (afinal, se envolver supostas técnicas curativas sem se dar ao trabalho de entender de ciência já é denota falta de caráter).

10. A minha experiência com charlatões e com seus seguidores demonstra que eles pura e simplesmente não entendem como funciona o método científico, e nem querem entender.

11. Essas pessoas fundamentam sua fé em evidências anedóticas, não entendem que esse tipo de evidência não tem valor científico e tem baixíssimo valor epistemológico. Não entendem de ciência e em geral nem sabem o que é epistemologia. Não entendem (nem querem entender), entre outros, os conceitos de placebo, de regressão à média, le lei dos grandes números ou de falácias lógicas - como argumento de autoridade ou post hoc ergo propter hoc ("depois disso, logo, causado por isso"). Depois de tantos anos acreditando em uma mentira (e depois de terem gastado tantos recursos com ela), não terão a dignidade, o caráter, de admitir o erro, porque não se importam com a verdade (se se importassem, entenderiam do método científico).

12. A acupuntura, assim como todas essas práticas alternativas não validadas cientificamente, não passa de pensamento mágico, de charlatanismo para tirar dinheiro de pessoas fragilizadas pelo sofrimento. Mesmo quando o charlatão não recebe qualquer pagamento econômico, ele recebe uma remuneração simbólica em termos de status, e isso já é muito gratificante para o ego dele (mesmo que ele alegue estar desprendido do próprio ego). Mas a maioria dos charlatões é muito bem remunerada economicamente pelo serviços que supostamente oferece.

13. Mesmo que me ofereçam de graça um serviço desses (no máximo, costumam oferecer a primeira sessão de graça), ainda assim eu estaria gastando meu tempo e minha atividade cerebral, o que são custos que não valem a pena para algo que a Wikipédia diz que é pseudociência.

14. Só me prestaria a gastar meus recursos com algo assim (qualquer medicina alternativa), se eu estivesse numa situação desesperadora e já tivesse tentado exaustivamente os tratamentos baseados em evidências.


"Os melhores estudos controlados mostram um padrão claro, com acupuntura o resultado não depende da localização da agulha ou mesmo da inserção da agulha. Como essas variáveis são as que definem a acupuntura, a única conclusão sensata é que a acupuntura não funciona. Todo o resto é o ruído esperado dos ensaios clínicos, e esse ruído parece particularmente elevado na pesquisa em acupuntura. A conclusão mais parcimoniosa é que com a acupuntura não há sinal, apenas ruído."


https://universoracionalista.org/acupuntura-nao-funciona/



09/03/22


Todo mundo é confiável, até um dia em que deixa de sê-lo.


16/03/22


Esse papo de “inteligência leva à solidão e à infelicidade” (no sentido de pessoas que têm uma inteligência acima da média serem mais infelizes) é somente verdade em parte, e em uma parte bem pequena.

Vale lembrar que existem muitas inteligências, ou, caso se queira pensar em uma inteligência apenas, existem muitas diferentes áreas as quais a inteligência pode se focar em detrimento das demais (e ninguém consegue nem chegar perto de ser inteligente na maioria delas, muito menos em todas). É um tipo específico de inteligência, ou uma área específica de foco da inteligência, que pode levar à infelicidade e à solidão, e não a inteligência em geral. Bem utilizada, focada na promoção da saúde e da melhoria da qualidade de vida, a inteligência tende a melhorar a vida das pessoas. O desconhecimento e a ignorância cobram preços muito mais elevados para a felicidade, e mesmo para a qualidade das relações interpessoais, do que o conhecimento e a sabedoria.

Esse papo de “os inteligentes são infelizes e solitários” é muito mais uma desculpa, uma racionalização, de gente pouco inteligente para afagar o próprio ego diante do fracasso na vida em termos de felicidade e de sucesso nas relações interpessoais (“sou infeliz e sozinho, mas é porque sou inteligente e os outros a minha volta são burros). Se a pessoa de fato aplicasse a sua inteligência a essa área (da busca da felicidade e do sucesso nas relações interpessoais), provavelmente ela teria bons resultados, mas ela escolheu se envolver em assuntos fringe alheios a isso, e, porque os domina minimamente enquanto a maioria das pessoas nada sabe sobre eles, ela se acha mais inteligente do que os outros, quando, na verdade, é apenas alguém (que pode ter uma inteligência mediana ou até abaixo da média) que decidiu focar em um assunto pouco usual.

Mesmo quando a pessoa foca a sua inteligência em entender a verdade sobre esse mundo, despida de otimismo e justificações laudatórias – e é esse o foco da inteligência que pode levar à infelicidade – , a infelicidade não decorre do conhecimento em si, mas do choque (da frustração da expectativa) desse conhecimento do que o mundo é com o desejo do que ele deveria ser: ou seja, não é causado pela inteligência, mas por um desejo que não se compatibiliza com a realidade.

Nós vivemos numa sociedade na qual cada vez mais tudo empurra as pessoas ao solipsismo. A solidão é um fenômeno social, da nossa época. Essa “tese” de “culpar” a inteligência é uma forma não inteligente de ignorar tanto a responsabilidade de cada pessoa sobre sua própria vida (inautenticidade), quanto a responsabilidade coletiva sobre o funcionamento social (reificação), quanto a responsabilidade política dos gestores/arquitetos do modelo de sociedade que criamos (pensamento apolítico).


19/03/22


Eudemonismo duanconradiano


É formado pela zona de interseção entre o niilismo passivo (mão esquerda), o maquiavelismo (mão esquerda), o cinismo (mão esquerda) e o estoicismo (mão direita).


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

XL

 

13/01/22

Eles não se importam com a verdade



Agora que as teorias da conspiração se tonaram arma política da alt-right, os sociólogos (esquerdistas) passaram a estudar o “negacionismo”. Se se importassem com a verdade, já teriam estudado o assunto há muito tempo. Mas não se importam com ela: se importam com poder, com política, com divisão do excedente econômico.

Certa vez (em 2004), um estudante de filosofia petista (hoje já é “doutor em filosofia”, risos), achou graça e esnobou a minha preocupação com a compatibilidade entre o idealismo transcendental e a relatividade geral. Ano passado, conheci um doutorando em sociologia que está estudando a vida de um político comunista brasileiro da metade do século passado. Parece até piada, o mundo acabando e essa é a prioridade a ser estudada.

Desse jeito, não surpreende que a humanidade esteja condenada à extinção. Essa gente vai morrer esperançosa, abraçada aos seus diplomas e ruminando a ladainha do realismo capitalista (“é mais fácil pensar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”).



15/01/22

A diferença entre religião e seita



O objetivo principal (e secreto) tanto da religião quanto da seita é criar um ambiente de exercício de poder dos líderes sobre os liderados. Esse poder se dá tanto na apropriação do excedente econômico como no controle psíquico sobre os liderados: os líderes ficam com vantagens econômicas e de status, gozam de prazeres ligados ao luxo e gozam por poderem brincar/controlar as mentes e as ações de outras pessoas: ao serem idolatrados, recebem privilégios de consumo de valores de uso, mas a idolatria vale por si mesma, mesmo que não houvesse reflexo no consumo de valores de uso. Vontade de potência. E o controle sobre as mentes abre espaço para algo muito importante para a maioria dos líderes: a oferta de corpos belos e submissos para o abuso sexual.

A diferença central entre a a religião e a seita é que a religião é um sistema de exploração extensiva, enquanto a seita é intensiva: a religião é para as massas e a seita é para pequenos grupos de pessoas com uma inteligência e um patrimônio acima da média. A religião é produção em massa, a seita é artesanato.

Toda religião começou como seita, e toda religião mantém seitas em seus círculos internos. Toda ideologia tem contornos de religião (1. uma doutrina da salvação (ou ao menos da melhoria da qualidade de vida), 2. dogmas e 3. hábitos de idolatria a ideias e a humanos ligados ao desenvolvimento e à reprodução dessas ideias), assim como todo grupo de estudos/trabalho de uma ideologia adquire contornos de seita (além dos contornos da religião já mencionados, há a submissão cega ao líder/aos líderes do grupo, além um relacionamento mais íntimo entre os membros do grupo (um grupo mais seleto) do que há entre os membros da religião): é como se a religião compreendesse o espaço que vai do país ao bairro, enquanto a seita começa na rua do bairro e entra no espaço da família.

Tanto na seita quanto na religião, os chamarizes são os mesmos: 1. uma doutrina da salvação (ou ao menos promessas quanto à melhoria da qualidade de vida); 2. o oferecimento da um grupo com o qual a pessoa possa se relacionar (o que remete ao comportamento atávico de mamíferos, hominídeos e humanos antigos de viverem em pequenas comunidades); 3. o oferecimento de um convicção quanto à verdade; 4. através dessa convicção de que se sabe a verdade, o oferecimento de uma base a partir da qual a pessoa possa odiar/desprezar os outros (se sentir superior a eles); 5. e, por fim mas não menos importante, um estilo de vida, o qual livra a pessoa de ter que tomar decisões sobre como viver a sua vida: basta seguir o roteiro definido pela doutrina e pelos líderes, ou mesmo consultar esses líderes para ser aconselhada por eles.

E, ao oferecer tudo isso, as seitas e religiões oferecem uma disciplina, um propósito, e uma comunidade, ofertas as quais realmente são capazes de melhorar a vida das pessoas, desde que haja uma homeostase, na cabeça de cada pessoa, entre a doutrina e o mundo fora da doutrina (desde que a pessoa consiga funcionar bem em sociedade apesar da doutrina da religião/seita: dentro de certos limites, a doutrina ajuda a promover a homeostase entre o indivíduo e o ser social; passando desses limites, ela começa a atrapalhar). Mas como o objetivo real é a remuneração que os líderes recebem por esses serviços prestados, mesmo com essas melhorias de vida a relação pode adquirir um aspecto sombrio de exploração, em especial nas seitas.

O papel dos líderes é administrar os serviços oferecidos pela religião/seita (descritos acima) e administrar a divisão social do trabalho e o patrimônio necessários para a autopoiese da religião/seita, bem como o papel de relações públicas, isto é, de ser a voz da religião/seita com o resto da sociedade.

As seitas que começam a fazer sucesso demais – no tempo (sobrevivem mesmo à morte do seu líder) e no espaço (têm uma doutrina vulgar o suficiente para se massificarem, ou têm uma doutrina que passa por um processo de vulgarização para que essa massificação ocorra) – viram religiões, as quais mantém as estruturas de seita em seus círculos internos. Idem para as ideologias políticas.



23/01/22

A falta de uma solução apriorística



O teórico da conspiração tende a achar que tudo é controlado por indivíduos planejadores e que nada é por acaso, já o razoabilista tende a achar que nada é controlado por indivíduos fora da possibilidade do escrutínio público (e que o que não é controlado pelos indivíduos, à mercê do escrutínio público, é controlado por forças naturais que regulam a homeostase dos sistemas complexos) e que muitas coincidências acontecem (melhor dizendo, que tudo o que não pode ser explicado pelo controle sob o escrutínio público ou pelas forças anônimas de homeostase dos sistemas complexos é explicado pelas coincidências).

Os dois lados estão parcialmente certos e parcialmente errados: de fato existem coincidências, de fato existem as forças anônimas que regulam os sistemas, de fato existem os controles sob o escrutínio público, mas também de fato há controles fora do escrutínio público. Não há como, a priori, aplicar uma regra geral (seja paranoica, seja razoabilista) para “resolver” (chegar à verdade) todo caso. Cada caso precisaria ser analisado meticulosamente para um veredito mais qualificado. Mas isso é, na prática, impossível. Impossibilidade essa que, inclusive, favorece aos possíveis conspiradores realmente conspirarem, pois sabem como é fácil suas pegadas e digitais serem apagadas, e ficar somente a aparência da coincidência.


21/02/22

A triquetra




A Exaptação Negativa da Lucidez interagindo com o Desejo alimentam nossa Fantasia e nos permitem imaginar mundos melhores do que o Mundo verdadeiro e versões de nós melhores do que os nós mesmos verdadeiros; passamos, então, a desejar essas versões alternativas, irreais, em detrimento do Real: projetamos nossos desejos para um campo de possibilidades que está fora do Real, para um campo Imaginário (o campo do Irreal). A partir do momento que não aceitamos a (nossa) Vida como ela é e o mundo como ele é (a partir do momento em que escolhemos dar prioridade ética a essas fantasias em detrimento do Mundo real e da (nossa) Vida real), a Verdade (que nos lembra de que não somos/seremos o que queremos ser, nem te(re)mos o que queremos ter, nem o Mundo é/será o que gostaríamos que ele fosse) passa a nos fazer mal, a nos deprimir: para nos animarmos, nos motivarmos e nos reconectarmos com a Vida, precisamos da Mentira ou do Esquecimento (ambas formas de tentar atacar a Exaptação Negativa da Lucidez), precisamos ou acreditar que de alguma forma (fantasiosa) seremos/teremos algum dia (nem que através de reencarnações ou transhumanismo ou seja o que for) o que queremos ser/ter; ou precisamos esquecer o que somos/temos e do que não somos/não temos: esquecer por meio das drogas químicas e semióticas (incluindo aqui os entretenimentos, as religiões e as utopias), do sono e da forma mais eficaz de esquecimento: a Morte.

O "realismo depressivo" é a preferência pela Verdade em detrimento da Vida. Mas essa contradição entre Verdade e Vida apenas existe como consequência da Escolha de não aceitação do Mundo e da Vida tal qual elas são (de, via Exaptação Negativa da Lucidez, conhecer o Real e rechaçá-lo), Escolha essa que é MORAL. A Verdade, no campo ontológico, faz mal à Vida porque já se escolheu, no campo ético, priorizar o Irreal em detrimento do Real. Se escolhemos aceitar o Mundo e a (nossa) Vida tal qual eles são, apesar de sermos capazes de imaginar mundos melhores – se escolhemos o amor fati – reconectamos a Vida à Verdade, e realizamos essa reconexão por meio de uma Escolha Moral, recuperando, assim, a tripla identidade entre o Bom, o Verdadeiro e a Vida. 

A separação entre Vida e Verdade, portanto, decorre da Escolha Moral Má, da escolha por priorizar eticamente o Irreal em detrimento do Real, da escolha de alocarmos o nosso Foco e, portanto, o nosso Desejo, no campo do Irreal (a vida acontece onde focamos a nossa atenção). A escolha Boa – que leva à reconexão entre a Vida e a Verdade – é a escolha de priorizar, no campo da Imaginação e do Desejo, o Real em detrimento do Irreal: é, apesar de conseguirmos imaginar mundos melhores e versões de nós mesmos melhores, escolher priorizar a (e, portanto, focar na) versão que de fato existe, reconciliando o princípio de Prazer com o princípio da Realidade e com a Vida: é cumprir a oração que pede para sermos capazes de mudar o que pode ser mudado (focarmos a imaginação e o desejo em melhorar o Real) e de aceitarmos o que não pode ser mudado (escolhermos eticamente retirar a Imaginação e o Desejo do campo do Irreal, aceitando o Real com suas limitações intrínsecas), tendo o discernimento (a Lucidez, não exaptada negativamente) de diferenciarmos um do outro.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

XXXIX

 

08/01/22

Os donos do mundo são psicopatas?

Considerar "os donos do mundo" como simplesmente "psicopatas" é uma simplificação moralista da questão. A verdade é que quase todo mundo faria o mesmo que eles fazem se estivesse no lugar deles. Há verdadeiros psicopatas no poder, mas há também os que são "apenas" maquiavélicos, e que aprendem a sê-lo mesmo por questão de manter seus privilégios (e os da sua família). Se eles não jogarem o jogo com maquiavelismo, sabem que serão descartados e perderão o poder e privilégio que possuem. Então, pensando em defender a si próprios e a sua família, não têm outra escolha senão jogar o jogo de acordo com as regras dadas, reproduzindo o poder e o capitalismo. Estão presos em gaiolas de ouro. Eles são instrumentos do poder e do capitalismo, se tentarem se opor, serão descartados ou mesmo destruídos: não apenas eles, mas suas famílias também.

Note que a pessoa comum, que precisa lutar diariamente para garantir seu lugar ao sol, está também sujeita à mesma pressão. A diferença é que a pessoa comum está presa aos níveis mais baixos da pirâmide de Maslow, enquanto quem está no topo está preso nos níveis superiores, e obviamente não quer cair para os níveis inferiores e, assim como a maioria, ter que precisar lutar diariamente pela satisfação das necessidades mais básicas. E nós sabemos que, satisfeitas as necessidades mais básicas, o desejo está longe de esmorecer. O desejo (as “necessidades”, como se diz pasteurizadamente) é tão poderoso que mesmo que os indivíduos pudessem colecionar universos onde eles são deuses, eles ainda iriam querer mais: e, novamente, isso não é uma psicopatia, dado que mesmo pré-adolescentes vulgares brincam de criar universos (escrevendo livros, criando jogos, programando simulações, etc.).

Dos mais pobres ao bilionários, estão todos tentando sugar o máximo que podem pelo máximo de tempo que puderem. Mesmo que saibam ou desconfiem que a sociedade tal como é não poderá durar para sempre, e que seus esquemas e empreendimentos particulares são insustentáveis, o objetivo é estender o máximo que der, aproveitar o quanto der, e ir empurrando os problemas para o futuro, para quando não der mais para empurrar. Gerações já passaram fazendo isso, e a atual sonha em fazê-lo também. Esse comportamento é incrivelmente semelhante, tanto na elite mais rica quanto do massa mais pobre: focar em ganhar o máximo possível, e empurrar a conta para o mais longe possível. A economia marginalista até chama isso de "comportamento racional" (maximizar os benefícios recebidos, minimizar os custos pagos).

Enfim, quem está no topo está mais para um fantoche do poder e do capital (e que obviamente é muito bem remunerado por esse trabalho e por isso não quer abandoná-lo) do que alguém simplesmente psicopata. Como já dizia Marx, todos são escravos do capital.

Além disso, acontece com quem está no topo algo muito parecido com a maioria da população em relação ao consumo de carne animal: há todo um processo de higienização para separar os horrores do custo dos prazeres dos benefícios. Assim como a maioria das pessoas dissocia completamente o sofrimento animal ao comprar a carne cortada e embalada em plástico no supermercado, assim também a elite do planeta vive numa bolha higiênica, longe das consequências atrozes dos seus atos. Assim como todo mundo sabe, de maneira vaga e abstrata, o que ocorre na produção da “proteína animal”, assim também a elite sabe de maneira vaga e abstrata sobre os horrores que o resto da vida do planeta paga pelos prazeres dessa mesma elite. Essas consequências estão tão longe no espaço e no tempo, que soam a simples abstrações. E há também a montanha de ideologias (racionalizações) que legitimam e até glorificam o trabalho da elite. Então, é muito fácil para eles fazerem o que fazem de consciência tranquila, sem precisarem de fato serem todos psicopatas e, obviamente, sem perderem o sono por isso. Aliás, esse papo do “como você/eles consegue(m) dormir à noite?” é uma confissão de ingenuidade a cerca da capacidade de todos os humanos de inventar racionalizações/justificativas/legitimações para os seus atos e para os benefícios que recebem em detrimento dos outros seres. Ninguém perde o sono por abstrações como essas. A banalidade do mal...


09/01/22

A Navalha de Hanlon não tem fio

Quem aplica a Navalha de Hanlon (“Nunca atribua à malícia o que pode ser adequadamente explicado pela burrice”) acaba sendo facilmente enganado por quem aplica a 21ª lei do poder ("Faça-se de otário para pegar os otários – pareça mais bobo do que o normal"). As pessoas tem um viés de vaidade que já as empurra a acharem que são mais inteligentes do que os outros, ou seja, a subestimar a inteligência dos outros. Levar a sério a Navalha de Hanlon é se aprofundar ainda mais nesse viés, e é ficar cego para os que se fazem de burros ou mesmo para os que são burros, mas ao mesmo tempo são maliciosos o suficiente para instrumentalizar a própria burrice.

A Navalha de Hanlon parte de uma falsa dicotomia: a de que a malícia é completamente separável da burrice. Existem pessoas que são burras e maliciosas ao mesmo tempo, e que, inclusive, aprendem a maliciosamente instrumentalizar essa burrice, em especial para explorar os próprios parentes. Assim como existem as que sabem da prevalência estatística da burrice ante a malícia e sabem que isso gera um viés cognitivo (no sentido de achar-se que é mais razoável supor, diante de um caso concreto, sempre a burrice antes da malícia) e usam disso para fingir que são burras, ou para fingir que são mais burras do que de fato são: ou nem são burras e fingem ser, ou são mas fingem ser mais do que de fato são.

Isso leva a um paradoxo: ao superestimar a burrice e ao subestimar a malícia, a própria Navalha de Hanlon pode produzir avaliações burras.

Por fim, a Navalha de Hanlon erra por pressupor um conceito muito superficial do que é burrice (e, portanto, do que é inteligência) como sendo algo antitético à malícia, bem como adota com conceito simplista de malícia. Há muitas inteligências, e muitas burrices, e as pessoas podem ser maliciosas em certos contextos e relações e buscar compensar sendo bondosas em outros contextos e relações. Uma pessoa pode ser burra em vários aspectos, e ainda assim ter uma inteligência interpessoal suficiente para ser capaz de enganar, ou chantagear, as outras (em especial familiares). Essas outras pessoas podem até saber ou desconfiar que estão sendo enganadas, mas podem, por meio de um pacto de mediocridade moral, decidir ser cúmplices para não ter que arcar com as custos do enfrentamento (novamente, isso é muito comum nas relações familiares).

Enfim, a realidade psicológica e social é bem mais complexa e cinzenta do que pressupõe a Navalha de Hanlon, embora, de fato, a burrice seja mais forte e difundida na fauna humana do que a malícia.


11/01/22

Como abordar uma sincronicidade?


"É tudo tão inexplicável que me dói a inutilidade das ideias." (Cioran, em O livro das ilusões)


1 Trata-se de mera coincidência, de mera aleatoriedade sem sentido sobre a qual o cérebro humano (especialista em criar narrativas) está aplicando um padrão imaginário. Essa é a abordagem típica do ateu materialista e do “cético” (cientificista).

2 Houve uma intervenção humana secreta: estamos no campo das teorias da conspiração. Já aqui, a mente “racional” (herdeira do iluminismo) rechaça a aventurar-se, pois se está negando o dogma racionalista-otimista e “lúcido” (não paranoico) presente na primeira abordagem. Trata-se de um dogma, de um modelo estabelecido a priori e do qual se faz uso de maneira dedutiva (um ato de fé; onde estão os supostos ceticismo e agnosticismo?) para invalidar a validade mesmo de qualquer especulação a respeito de uma possível conspiração. Claro que também é verdade que, ao aceitar-se especular sobre uma conspiração, abre-se a porta para todo tipo de delírio. O problema é que às vezes a realidade é delirante mesmo. Basta olhar ao redor. O otimista-racionalista-privilegiado pode até olhar, mas não vai ver nada. Ele é incapaz de ver o lado sombrio da existência.

3 Houve uma intervenção secreta, mas não humana, ou não apenas humana: fácil entender o medo dos racionalistas em abrir a caixa de Pandora da conspiração, não? Pois agora já estamos falando de entidades inteligentes não humanas intervindo no mundo humano.

4 O evento foi natural, não houve uma planejamento, uma conspiração. Mas a sincronicidade é um indicativo de que, de alguma forma desconhecida, a dimensão do simbólico, do cultural, faz parte da própria natureza e está imiscuída nas relações naturais de causa e efeito.

Claro que nada impede que todas as abordagens estejam corretas, cada uma em um determinado caso concreto em particular. Às vezes um cachimbo é só um cachimbo; às vezes, não é só um cachimbo.

    






12/01/22

Quando o negacionismo não é considerando negacionismo


A maioria dos físicos não acredita que iremos algum dia conseguir realizar viagens interestelares com a facilidade com que elas são mostradas nas centenas (talvez milhares) de obras de ficção científica que abordam o tema e saturam o imaginário público. Assim também ocorre com a questão da viagem no tempo, embora essa apareça menos nas obras de ficção científica. Embora o termo seja “ficção científica”, essas ficções já se repetiram tanto que vivaram realidade: parece só questão de tempo até que desenvolvamos as tecnologias necessárias.

Porém, apesar da verdade científica, essas fantasias prometeicas já estão tão onipresentes em nosso imaginário, que soa até contraintuitivo acreditar que, mesmo se o desenvolvimento tecnológico continuar por centenas (ou mesmo milhares) de anos, simplesmente nunca teremos a tecnologia para realizar hodiernamente tais façanhas já demonstradas virtualmente impossíveis pela ciência.

Por que esse imaginário anticientífico – negacionista – é aceito pelo mainstream? Por que não é perseguido? Por que não há campanhas de conscientização? Por que os cientificistas e divulgadores científicos não militam contra essa ilusão? Por que eles, ao contrário, até mesmo chegam a celebrá-la? Bem, é fácil responder: porque é uma ilusão otimista, conveniente ao prometeismo tecnológico que anima o imaginário da modernidade e do iluminismo, porque é um imaginário reconfortante ao ego e à vaidade dos poderosos (os poderosos econômicos, os poderosos políticos e até os poderosos científicos) e da população em geral, porque atende aos interesses do poder hegemônico (inclusive ao viabilizar um volume enorme de entretenimento para as massas), porque vai de encontro à vontade de poder.

Ou seja, para uma assertiva, uma convicção, ser taxada de “negacionismo” não basta ela ser contrária ao que a ciência diz, ela também precisa ser desagradável aos interesses dos poderosos.


quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

XXXVIII

 

12/12/2021


Uma vida humana de 90 anos tem apenas 2.838.240.000 de segundos. Para viver 8 bilhões de segundos (um para cada ser humano vivo no planeta), seria necessário viver 253,68 anos.


28/12/2021

As pessoas acreditam no que querem acreditar. Mas isso não quer dizer que todos estão igualmente enganados sobre tudo ao mesmo tempo. Mesmo todos estando movidos por vieses cognitivos, acaba acontecendo de, sobre uma questão em particular, uns estarem mais certos do que outros. É quase como aquela frase “até um relógio parado acerta pelo menos uma vez por dia” (duas vezes por dia se for um relógio de ponteiro), mas isso num caos semiótico com bilhões de relógios: em cada momento, há um grupo de relógios que está marcando a hora certa.


30/12/2021

Terceiro incluído.


"Bateson’s insight helps us see the unique meanings of wrestling. Everything

Dundes (1997) says about football and other ball sports applies in some ways to

wrestling, but wrestling distills the symbolism. In wrestling, there are no distancing,

mediating symbols; the male contact is as direct and as intimate as a sport can

get. For the wrestlers, but also (we think) for the observers, wrestling combines

primary and secondary processes. Put differently, wrestling both is and is not combat.

Wrestling both is and is not sex. It looks and feels like combat, and it looks

and feels like sex, but the peculiar, paradoxical genius of the wrestling play frame

is that it both is and is not either of these." ("Wrestling with Masculinity", Andrew Delfino & Jay Mechling, 2017)





01/01/2022

A condição humana


A exaptação negativa da lucidez gera consternação, espanto e dissonância cognitiva com o real. Junto com a imaginação, a consternação, o espanto e a dissonância cognitiva alimentam hipérboles do real: fantasias sobre versões alternativas melhoradas do real. Esse choque entre real e ideal (irreal melhor do que o real) leva a uma insatisfação com a vida e, essa, alimenta o desejo de morrer e enfraquece o desejo de viver.

O instinto de sobrevivência atua junto com a imaginação e, via wishful thinking, cria a convicção de que as hipérboles imaginadas são reais: surgem as fés anímica e mitológica num mundo transcendente, fés que depois, dogmatizadas e institucionalizadas, fundamentarão a crença religiosa, e que, depois, levadas para o domínio da política, se transformarão em utopia-ideologia política, e que, mais depois ainda, levadas para o domínio da indústria cultural, se transformarão em entretenimento.

Por meio dessa fé numa irrealidade, reconcilia-se o real com a consciência ferida pela insatisfação com esse mesmo real: o organismo persevera na vida, não pela vida em si (o real) mas pela imaginação de uma vida fictícia que transcende a vida real (ou seja, algo irreal, mas que se acredita real, ajuda o organismo a cumprir seu instinto de autoconservação e assim manter sua adesão ao real mesmo quando esse apresenta-se como insuficiente, e assim aderir às atividades autopoiéticas).

O organismo que consegue manter uma homeostase entre o real e o irreal persevera na adesão à sua própria autopoiese; o que não consegue, acaba por sucumbir ao suicídio pelas mais diversas formas possíveis, incluindo o suicídio em doses homeopáticas, geralmente cometido nos casos de distimia.


04/01/22

Quanto mais envelhecem, mais as pessoas se afundam em si mesmas, menos provável é que haja uma mudança expressiva em sua idiossincrasia. Muitas pessoas vão virando caricaturas. Conversões tendem acontecer basicamente se favorecem esse movimento de se afundar em si mesmo.

Com a saturação informacional e com a quantidade enorme de informação que cada subcultura produz, fica cada vez mais difícil sair de uma subcultura em particular e ir para outra.

Os sistemas (sejam os cérebros humanos, sejam as subculturas, seja uma civilização) vão progressivamente se fechando em si mesmos, e tudo que vem de fora passa por um filtro estruturado em torno da descrição que o sistema faz de si mesmo.

Enrijecimento, fechamento, afundamento, caricaturamento... e, por fim, a morte.


06/01/22

Se precisar resumir a minha posição na vida com algum/uns “ismo(s)” de maneira mais curta possível, seria a seguinte: um niilista passivo eudemonista. Não dá para dizer que sou apenas niilista passivo, e nem dá para dizer que sou apenas eudemonista. Eu adoto uma mistura de partes dos dois, irredutível a um ou a outro, mas sem adotar nenhum integralmente. As partes do meu ethos que não podem ser reduzidas a niilismo passivo, podem ser reduzidas a eudemonismo, e vice-versa. Talvez (eu teria que estudar mais para ter certeza) seja possível sintetizar esse niilismo passivo eudemonista como uma forma de cinismo.


A inutilidade da vida foi reconhecida no cinismo e, no entanto, ele ainda não se voltou contra a vida. Não: ali, muitas pequenas vitórias e uma língua solta satisfazem.” (Niehues-Pröbsting, “A recepção moderna do cinismo. Diógenes no Iluminismo.”)


07/01/22

Quando estaremos todos mortos?


Após cerca de 6 anos e meio acompanhando quase que diariamente a questão do "fim do mundo", tenho as seguintes estimativas a apresentar.

Primeiramente, há pelo menos cinco "fins do mundo":

1) O colapso da civilização/capitalismo global, com a inviabilização da vida da maioria dos humanos.

Mas ainda restaria um "mundo pós apocalíptico", formado pelos sobrevivencialistas, pelas pessoas nos bunkers, pelas agrupamentos humanos que até hoje não entraram em contato com a civilização e com uma massa de sobreviventes do colapso (o tamanho dessa massa depende do desenrolar do processo de colapso em si). Esse mundo pós apocalíptico, então, se arrastaria para o fim propriamente dito (o fim de "de fato" interessa para os humanos):

2) A extinção humana

Após a extinção humana, o planeta continuará a sofrer com as consequências dos processos que levaram à extinção humana, o que poderá levar a um terceiro fim do mundo:

3) A extinção de toda a vida na Terra

Mas ainda existiria a chance da vida acabar voltando à Terra. Para isso não acontecer, a própria Terra teria que acabar:

4) A destruição da Terra

Por fim, ignorando a provável existência de vida em outros planetas e pulando para o "último fim":

5) O fim do universo (provavelmente mediante a morte térmica)

Claro que provavelmente existem outros universos e até uma quantidade incalculável de multiversos, então mesmo o fim desse universo não seria o "último fim" necessariamente.

Focando nos dois primeiros fins: Não necessariamente é preciso levar décadas entre os dois. O colapso da civilização pode ser tão destrutivo que pode destruir em questão de meses ou poucos anos o habitat para o Homo sapiens. Uma vez o habitat destruído, a espécie está funcionalmente extinta, mesmo que ainda possam restar indivíduos (por exemplo, bilionários em superbunkers com estoque de mantimentos para algumas décadas). Mas também não sabemos se existem bunkers bons o bastante para proteger de todos os perigos possíveis (por exemplo, para proteger da radiação que será emanada pelos cerca de 500 reatores nucleares que ficarão sem a devida manutenção, além de todo o lixo nuclear que também ficará sem manutenção).

Bem, dada toda essa explicação e focando no primeiro fim (morte da maioria dos humanos), a probabilidade estimada por mim é:

30% de que ocorra entre 2022 e 2030;

60% que ocorra entre 2031 e 2060;

9,9% que ocorra entre 2061 e 2090;

99,9% de que ocorra até 2090.

Quanto à segunda definição (extinção humana, morte do último espécime humano), a probabilidade estimada é a seguinte:

15% de que ocorra entre 2025 e 2035;

50% de que ocorra entre 2036 e 2065;

30% de que ocorra entre 2066 e 2099;

4,9% de que ocorra entre 2100 e 2130;

99,9% de que ocorra até 2130.

(Obs.: Cabe salientar que, comparando-se com o que costuma-se acreditar na comunidade da Near Term Human Extinction, essas probabilidades são bem otimistas.)

Quanto à terceira definição, é possível que a destruição causada pelo Homo sapiens seja tão grande que de fato leve à perda do habitat para todas as formas de vida que atualmente ocupam o planeta. Mas como esse processo poderia levar até milhares de anos após a extinção humana para de fato se consumar, fica difícil fazer uma estimativa confiável o suficiente para ser mensurada em termos de datas e probabilidades.

Quanto à destruição da Terra e do Universo, há muitas estimativas realizadas pelos cosmologistas, em geral estando para acontecer daqui a bilhões de anos. Longe demais para eu me preocupar no momento.

"O Fim do Mundo — que alívio pensar nisso! No entanto, só podemos falar honestamente do Fim do Homem, que é previsível e até mesmo certo, enquanto o outro parece dificilmente concebível. Não vemos, com efeito, que sentido poderia haver em falar do fim da matéria; pois um fim tão distante não diz respeito a ninguém. Fiquemos nas proximidades do homem, onde o desastre faz parte da paisagem e do programa." (Emil Cioran, em "Cadernos: 1957–1972")

sábado, 11 de dezembro de 2021

XXXVII

 

04/11/2021

Em essência, a minha diferença para os razoabilistas e cientificistas é que eu não tenho compromisso (convicção) acerca de certos dogmas do iluminismo: racionalismo, progressismo, humanismo e otimismo. Sou um irracionalista, não acredito no progresso, não tenho compromisso com os humanos e sou pessimista. Isso me abre a interpretações trágicas e paranoicas, as quais são negadas, por viés cognitivo, a priori pelos razoabilistas e cientificistas. Não tenho compromisso com a autopoiese (seja da vida em geral, seja dos humanos, seja da cultura ocidental, seja de certas ideologias, seja de certas instituições), o que me confere uma liberdade de pensamento maior do que a da maioria das pessoas, por não estar preso ao bom-mocismo ingênuo que esse compromisso costuma implicar em. A verdade é a verdade; ela não necessariamente converge com interesses autopoiéticos, seja lá quais forem. Comprometer-se a priori com a vida em geral e/ou com vidas em particular (por exemplo, comprometer-se com o progresso da ciência, com o sucesso das instituições e das pessoas ligadas à ciência) é escolher outras prioridades antes da questão da verdade, é escolher vieses cognitivos que vão conspirar contra a busca pela verdade.

Não que eu concorde prontamente com os paranoicos, eu apenas não descarto as suas hipóteses a priori (com base em dogmas e em vieses cognitivos), como fazem os razoabilistas, racionalistas, cientificistas, iluministas.

Ambos os lados são liderados por fanáticos, que estão numa guerra pela hegemonia ideológica, a qual, por sua vez, afeta a distribuição do excedente econômico. A nossa visão de mundo afeta as nossas escolhas, e as nossas escolhas afetam a distribuição do excedente econômico. E a nossa visão de mundo é socialmente construída, por relações intersubjetivas. É uma batalha por nossas mentes, e nela todos têm interesses em jogo. Acusar esse ou aquele lado de difundir essa ou aquela afirmação, negação ou dúvida por motivo de interesse próprio não invalida, epistemologicamente, a afirmação ou negação ou dúvida. A verdade independe de interesses, e os interesses podem, dependendo do contexto, serem atendidos pela verdade, ou pela mentira ou (como em geral acontece) por uma mistura de ambas. Mesmo porque todas as posições atendem certos interesses e atrapalham outros. E os fanáticos, seja de que causa forem, têm mais pontos cegos do que os não fanáticos. Por outro lado, são especialistas no assunto pelo qual são fanáticos. É útil levar em conta o conhecimento especializado deles, mas sempre tendo em mente os pontos cegos ensejados pelo fanatismo e pela especialização.

As ferramentas de propaganda necessárias para difundir uma mentira também são necessárias para difundir uma verdade. A verdade (em especial se contraintuitiva, se anódina e/ou se contrária ao senso comum e ao otimismo) não se impõe por si só, muito pelo contrário. Detectar que tal assertiva está sendo difundida por técnicas de propaganda não é suficiente para concluir que ela é uma assertiva mentirosa.


10/12/2021

Qual é o sentido da vida?

(Já tratei disso no dia 11/07/2017)


Basicamente, há duas abordagens para essa questão, sendo que normalmente as pessoas já partem para a segunda:


1. A primeira é a abordagem fática, ontológica, empirista, objetiva, física, científica, positiva, avalorativa: ela busca meramente tentar descrever, da forma mais a objetiva possível, o fenômeno da “vida”, bem como o epifenômeno da “vida humana” e ainda os epifenômenos das “sociedades humanas” e das “culturas humanas”. Sob esse aspecto, o “sentido” da vida é meramente uma descrição dos processos das atividades biológicas e sociais, e, em uma palavra, se reduz à ideia de autopoiese. Nesse campo, temos as ciências da natureza e parte das ciências sociais, e até parte da filosofia da natureza e parte da antropologia filosófica. A autopoiese se divide em três grandes campos: a do corpo do indivíduo/organismo (que está num permanente processo de autoconstrução até exaurir-se na morte), a da espécie (coletivo de organismos no espaço no tempo) através da reprodução (a criação de novos corpos) e, no caso dos seres gregários (como os humanos), a do arranjo social dos organismo (que, no caso dos humanos, incluí a esfera da cultura e, como subesfera da cultura, a esfera das instituições).

De um ponto de vista marxista e de outras abordagens (transhumanismo, iluminismo das trevas e outras), é possível especular que a autopoiese dos corpos humanos e da sociedade humana foi capturada e instrumentalizada (reificada) como parte do processo de autopoiese de algo que inicialmente foi criação dos próprios humanos: o capital, no caso do marxismo, e a inteligência artificial, no caso do transhumanismo e no caso do iluminismo das trevas. Essas ontologias já estão invariavelmente contaminadas pela segunda abordagem, embora isso não necessariamente descarte a priori tudo o que elas dizem.


2. A segunda é a abordagem desejante, deontológica, idealista, (inter)subjetiva, moral, ideológica e utópica, normativa, valorativa: ela busca não descrever o que a vida é, mas sim dizer o que a vida deveria ser, e esse desejo acaba contaminando a própria descrição daquilo que a vida é. Nesse campo, temos a infindáveis ideologias, doutrinas, filosofias, religiões, etc. Não há uma resposta para essa pergunta no campo da objetividade, portanto, nesse campo da objetividade está correto afirmar que a vida não possui um sentido moral (o que tanto indignou Schopenhauer e o que foi objeto do meu texto de 11/07/2017).

E essa abordagem valorativa se divide, ela também, em ao menos duas partes: a que trata da autopoiese o coletivo (a humanidade, a civilização, a nação da qual a pessoa faz parte, a comunidade da qual ela faz parte, os indivíduos em geral) e a que trata da autopoiese da própria pessoa que está pensando, em sua cotidianidade concreta e na interação com as pessoas mais próximas (incluindo aqui a família).

Quanto à primeira parte dessa segunda abordagem, eu não tenho uma posição forte, pois não tenho a convicção suficiente para me agarrar a alguma receita disponível ou inventada por mim. O mais perto que chego de uma convicção é algo na linha do transhumanismo, mas não acredito que seja algo concretizável, por causa do processo de extinção humana já em curso.

Já quanto à segunda parte, a minha posição é professar uma espécie de eudemonismo maquiavélico apolítico niilista. E eu reconheço que essa posição é uma mera redução de danos, dado o cenário ontológico desfavorável aos seres humanos em geral e a mim em particular. Nesse horizonte limitado, essa é a posição que, acredito eu até o presente momento, é menos deletéria para a minha própria autopoiese.


É muito difícil para os humanos em geral (presos numa luta diuturna pelo poder, pelo controle do excedente econômico) focarem no primeiro ponto e se esforçarem para reduzir ao mínimo a ideologia para tentarem chegar numa descrição a mais objetiva possível. Porém, as descrições, mesmo que maculadas pela ideologia e pela fantasia, podem ainda oferecer alguma descrição útil do ponto de vista da (tentativa de) objetividade.


Está sentindo, Sr. Anderson, o fim que se aproxima? Eu estou. Eu deveria agradecer.

Afinal, foi a sua vida que me ensinou a função de qualquer vida. A função da vida é terminar.”

(Agente Smith, em The Matrix Revolutions)


Voltando ao ponto de vista objetivo, uma interpretação mais literal da expressão “sentido da vida” nos permite responder que o sentido da vida é, tanto do ponto de vista de um indivíduo como do ponto de vista da coletividade, a morte. Se não me engano, isso é dito pelo Schopenhauer no capítulo XLI do Tomo II d'O mundo como vontade e como representação. A vida, ao menos até onde o conhecimento validado cientificamente nos permite conhecer, é um esforço neguentrópico – invariavelmente condenado ao fracasso. Assim sendo, no sentido mais objetivo, podemos dizer que a vida é simultaneamente um movimento de fuga da morte (por meio da autopoiese) quanto um movimento de encaminhar-se em direção à morte: é uma tentativa de vencer a morte, uma tentativa da neguentropia vencer a entropia. Movimento esse que aparece e permanece enquanto há as condições físicas para a sua manifestação. Lembremo-nos também da hipótese clássica de William R Clark para o envelhecimento (uma das causa da morte): é um efeito colateral justamente dos mecanismos que buscam refrear (diminuir o ímpeto) da autopoiese celular, para assim diminuir o aparecimento dos cânceres (uma outra causa da morte).


11/12/2021


Caminhos seculares para o fim do mundo:

(não estão em ordem de probabilidade de acontecer)


1. Primeira fronteira planetária: crise climática (fronteira já ultrapassada e em acelerada piora a cada dia; há dezenas de feedbacks positivos que já foram acionados e que estão sendo acionados, os quais são suficientes para levar a um aumento exponencial da temperatura em poucas décadas ou, sendo otimista, séculos; o que, por sua vez, é suficiente para levar a presente civilização global ao colapso e a espécie humana à extinção; ou mesmo, dizem uns, é suficiente para extinguir toda a vida na Terra).

2. Segunda fronteira planetária: perturbação no ciclo do nitrogênio (fronteira já ultrapassada).

3. Terceira fronteira planetária: perda da biodiversidade (fronteira já ultrapassada) (são mais de 200 espécies extintas por dia!, segundo estimativa da ONU em 2010; é óbvio que isso não tem como durar por muito tempo).

4. Quarta fronteira planetária: acidificação dos oceanos (fronteira próxima de ser ultrapassada).

5. Quinta fronteira planetária: perturbação no ciclo do fósforo (fronteira próxima de ser ultrapassada).

6. Sexta fronteira planetária: exaustão do uso de água limpa.

7. Sétima fronteira planetária: depleção do ozônio.

8. Oitava fronteira planetária: desflorestamento e outras mudanças no uso do solo.

9. Nona fronteira planetária: poluição química.

10. Décima fronteira planetária: poluição atmosférica.

11. 3ª Guerra Mundial.

12. Uma pandemia global de um vírus de alta letalidade (não precisa o vírus matar todos os humanos, precisa matar o suficiente para desagregar as cadeias produtivas ao ponto do humanos sobreviventes ao vírus morrerem em função da fome e do caos social).

13. Queda na taxa de fertilidade humana (uma das maiores especialistas mundiais em fertilidade masculina disse que em 2050 é possível que todos os homens sejam inférteis).

14. O acidente de Fukushima (há gente que acredita que esse acidente, sozinho, é suficiente para extinguir a humanidade em seis gerações; processo que, portanto, estaria em curso).

15. Outros acidentes envolvendo energia nuclear (inclusive acidentes que podem acontecer aos montes em caso de um caos social global causado, por exemplo, por uma pandemia, uma guerra mundial, uma forte tempestade solar atingindo a Terra, etc.).

16. Cenários apocalípticos envolvendo inteligência artificial.

17. Terrorismo/guerra cibernético/a num nível que desagregue severamente as cadeias produtivas globais. Incluindo aqui uma interrupção da internet mundial.

18. Tempestade solar que destrua boa parte da rede elétrica do mundo (já aconteceu no século XIX um evento desses, que se acontecesse hoje em dia seria catastrófico).

19. Meteoro/Asteroide grande o suficiente chocando-se com a Terra ou com a Lua.

20. Blue Ocean Event (deve acontecer antes de 2030; consequências não lineares imprevisíveis; possível extinção humana poucos anos depois do primeiro BOE).

21. Bomba de metano do Ártico (pode acontecer a qualquer momento, e cada vez é mais provável que aconteça), por derretimento do permafrost (pergelissolo). "Tudo o que é sólido desmancha no ar"...

22. Derretimento da geleira do fim do mundo (Thwaites Glacier).

23. Colapso da Amazônia.

24. Extinção das abelhas e/ou de alguma outra espécie essencial para a agricultura.

25. Rendimentos decrescentes na agricultura (mesmo com todo avanço tecnológico que se inventar), devido à exaustão dos recursos (solo, biodiversidade, falta de insumos à base de petróleo, etc.).

26. Fim do petróleo (projetado, atualmente para a década de 2060) ou de algum outro insumo-chave para a manutenção da atual civilização. (para além da energia, o petróleo é usado em tudo na vida contemporânea, em especial nos plásticos (que estão em toda parte) e na produção dos insumos da agricultura; não há agricultura para alimentar 8 bilhões de corpos humanos sem petróleo suficientemente barato disponível).

27. A Terra ser atingida por algum evento cósmico ainda não listado (por exemplo, receber uma dose maciça de radiação gama fruto de uma morte estelar (isso já aconteceu, com dose pouco letal, na Idade Média)).

28. Tentativas frustradas de geoengenharia (como o avanço da crise climática, várias propostas estão surgindo; obviamente, não há uma outra Terra para testá-las, então qualquer proposta que se tente implementar pode gerar consequências não previstas nos modelos e desagregar os processos planetários o suficiente para levar ao fim do mundo).

29. Colapso na vida dos oceanos (já há projeção de extinção dos recifes de corais para daqui uns 15 anos). O colapso dar-se-ia por uma mistura de fatores: pesca predatória + poluição + acidificação + aumento da temperatura + extinção de espécies centrais nas cadeias alimentares. Há a projeção de que em 2050 haverá mais plástico nos oceanos do que matéria orgânica. Não é possível bilhões de humanos vivendo num planeta com os oceanos mortos. Talvez nenhum humano sobreviva no "planeta água" com  os oceanos mortos.

30. Colapso (rápido demais) do atual arranjo capitalismo global (o que pode tanto desagregar as cadeias produtivas, quanto pode causar um pico da temperatura no planeta  inviabilizando a agricultura  via perda do efeito de escurecimento global, quanto pode levar à 3ª Guerra Mundial, quanto pode levar a acidentes nas quase 500 usinas nucleares espalhadas pelo mundo devido ao caos social, etc.)

31. Erupção do supervulcão de Yellowstone.

32. Infocalipse: desagregação cognitiva e estrutural da sociedade em função do caos semiótico e da entropia informacional, como especulado por Franco Bifo e Paul Virilio, entre outros.

33. Superbactérias resistentes a antibióticos.

34. Autocolapso da Internet (vide livro "Error 404:¿Preparados para un mundo sin internet?, de Esther Paniagua)

35. Invasão alienígena (essa já é bem menos provável do que todas as outras listadas aqui, boa parte das quais já está em curso). (Vou parar por aqui, para não misturar os cenários de alta plausibilidade com cenários fantasiosos, como o nascimento de um novo universo, ou a destruição da Terra fruto de algum experimento envolvendo acelerador de partículas ou algo assim, ou ainda o grey goo, etc.)