sábado, 30 de dezembro de 2023

XLVI

 

28/10/23

É impressionante como daria para transformar a vida da maioria das pessoas para muito melhor se elas lessem um parágrafo por dia dA Arte da Prudência. Livro de 300 parágrafos, do século 17, em domínio público, com 100 páginas.


31/10/23

O capitalismo quer nos usar e nos jogar fora. Usar-nos intensamente como produtores e consumidores de mercadorias. Usar-nos com uma intensidade tal que consome a nossa saúde e a nossa vida. Mas tudo bem para ele, pois o mundo das mercadorias também lucra com o nosso adoecimento e com a nossa morte. Cabe a nós resistirmos, defendermos nossa saúde e a nossa vida. Porém, na condição de trabalhadores assalariados, sempre teremos que aceitar um certo nível de corrosão da nossa saúde em troca do privilégio de estarmos bem empregados. Cabe a nós nos disciplinarmos para que a erosão de nossa saúde seja minimizada. Eliminar a zero essa erosão, ou até torná-la negativa, só é possível para quem atingiu a independência financeira.


07/11/23

Alimentação saudável, higiene do sono, prática regular de exercícios físicos, higiene mental, vida organizada, inteligência financeira, desenvolvimento pessoal... Trabalhar para melhorar nessas áreas implica numa melhoria de qualidade de vida para qualquer pessoa, seja autista ou não. 

Talvez não adiante muito saber sobre o autismo e sobre o quanto a sociedade precisa mudar para podermos viver melhor nela e ao mesmo tempo ignorar esses aspectos importantes para a melhoria da qualidade de vida de qualquer pessoa.

E nesse mundo cheio de distrações, não há como conseguir focar em todas essas áreas sem muita disciplina e sem dizer não para os prazeres imediatos que nos são oferecidos o tempo todo pelos vendedores capitalistas. O sistema nos usa para realizar os lucros. A capitalismo não está aqui para atender as necessidades humanas (como está escrito em qualquer livro de introdução à Economia), são as pessoas que estão aqui para atender a necessidade do capitalismo. Somos usados e descartados e nesse processo somos fonte de lucro na produção e no consumo das mercadorias, mesmo ao custo da nossa saúde, pois o sistema também lucra com nossas doenças e com nossa morte, já que elas também são ocasiões para a venda de mercadorias. Se queremos defender a nossa saúde e a nossa vida, precisamos resistir à sedução do mundo das mercadorias, aos cantos das sereias mercantis.


15/11/23

Motivos para o fim do sexo (todos, exceto o último, ligados ao capitalismo tardio)


*Hegemonia do mundo das mercadorias: A libido das pessoas se canaliza para o trabalho (produção de mercadorias) e para o consumo de mercadorias (incluindo as de entretenimento, que existem num montante muito maior do que alguém consegue consumir). A insegurança laboral exige um esforço de permanente busca de qualificação e atualização, pois nunca se está qualificado o suficiente. Enquanto isso, o sexo real é reprimido por puritanismos (como sempre foi), tanto de esquerda e de direita. Ou seja, há muitos incentivos sociais para não se engajar no sexo e, ainda, incentivos para se afastar do sexo. Não há publicidade para o sexo real, pois ele não é uma mercadoria. A desaparição do sexo é apenas um epifenômeno de um mundo saturado de mercadorias e focado na valorização do capital por meio dos humanos, e não focado em trazer qualidade de vida e de relações para os humanos. Ou seja, um mundo capital-ista, e não social-ista ou human-ista.

*Por causa das redes sociais e dos conteúdos áudio-visuais, por causa do semiocapitalismo, há uma saturação de contatos com os humanos, mesmo que sejam contatos de péssima qualidade. Essa saturação gera uma aversão à intimidade, uma incapacidade de suportar a intimidade, um desinteresse em desejar a intimidade. A profusão de telas gera uma hiperestimulação do visual em detrimento dos outros sentidos. Audição e paladar também conseguem ser bem explorados pelo mundo das mercadorias. O sentido menos experimentado e menos desenvolvido é tátil, por ser o mais difícil de ser explorado mercantilmente. A falta de experiência com esse sentido leva, no indivíduo, a sua atrofia e ao medo de explorá-lo: melhor se acomodar no que já está conhecido e estimulado pelo capitalismo.

*Exposição precoce e em grandes quantidades à pornografia. Confundir pornografia com realidade, estabelecendo um padrão inatingível. A pornografia (conteúdo audiovisual para masturbação), na medida em que é facilmente mercantilizada, não poderia deixar de também ser abundante e contribuir para a saturação de contato virtual com o humano e para o estímulo ao isolamento narcísico do indivíduo num mundo de fantasias no qual ele não precisa se arriscar a se relacionar com o outro. É muito mais fácil viver num mundo fantasioso de masturbação no qual o outro é um mero simulacro do desejo do próprio multivíduo desejante. Não há resistência, atrito, contrariedade, intimidade, desconforto, dificuldades de comunicação, negação em atender a demanda, etc.

*Crise da masculinidade. Os homens são estimulados a serem menos masculinos, mas as mulheres continuam a desejar secretamente "homens de verdade". Isso gera um aprofundamento do desencontro entre homens e mulheres.

*Como essa morte do sexo se trata de um processo social e como o sexo depende da interação com o outro, fica muito difícil para alguém encontrar um outro alguém que queira se esforçar para resistir a essas pressões sociais e queira ter relações sexuais de qualidade. Quando estamos falando de essencialismo, de estoicismo, de eudemonismo, de higiene mental, de alta performance, etc., estamos falando de práticas nas quais a pessoa pode se engajar sozinha, independentemente dos outros ao seu redor. Mas, nesse caso do sexo, ela precisa necessariamente achar alguém (por quem ela seja atraída sexualmente, e vice-versa) que tenha esse mesmo interesse de resistir a essas pressões sociais e se engajar na construção da intimidade por meio de relações sexuais de qualidade. E isso gera uma dificuldade adicional.


28/11/23

Saúdismo.

"Que tempos são estes, em que temos que defender o óbvio?" (Bertolt Brecht)


Mens sana in corpore sano, um ideal que tragicamente se perdeu neste mundo no qual os humanos são meras ferramentas de um maquinismo pantagruélico.

Vida simples e de alta performance. Foco na saúde. "Saúdismo" 

1. Saúde física

1.1. Exercícios

1.2. Alimentação

1.3. Sono

- ritual do sono

1.4. Consultas médicas

1.5. Autocuidados (higiene pessoal, profilaxias, segurança, prevenção, etc.)

2. Saúde mental

2.1. Desenvolvimento pessoal

- Eudemonismo

- Estoicismo

- Epicurismo

- Cinismo

- Essencialismo 

- Pragmatismo

- Maquiavelismo

- Inteligência Emocional

- Inteligência Positiva

- Tomada de Decisão

- Organização Pessoal

- Produtividade 

- Clássicos da autoajuda

- Comunicação

- CNV

- Persuasão, influência, sedução, manipulação

- Liderança 

- Hábitos 

2.2. Psicologia

- Conhecer o básico de psicologia e de neurociências (Priorizar as Práticas Baseadas em Evidências)

- Fazer terapia

- Gestão do estresse e da ansiedade 

- Psicologia Positiva 

2.3. Praticar Mindfulness 

2.4. Cultivar bons relacionamentos

2.5. Ter uma boa vida sexual

2.6. Organização da vida 

2.7. Diversão 

3. Saúde Financeira 

3.1. Ganhar dinheiro

3.1.1 trabalho

-- entregas

-- jogo político

-- Networking 

-- currículo

-- melhoria contínua

-- aprendizagem contínua

-- conhecimento crítico sobre a exploração do trabalho no capitalismo 

-- etiqueta corporativa

-- cultura corporativa

3.1.2. investimentos

-- conhecimentos teóricos e práticos

3.2. Poupar dinheiro

- minimalismo

- inteligência financeira

- conhecimento crítico sobre o capitalismo, sobre o marketing e sobre a publicidade

- conhecimento sobre golpes, sobre segurança e sobre cibersegurança.


08/12/23

Sinto-me mais à vontade sob a subcultura coach do que sob a subcultura do mimimi.

....

Os desejos e as fantasias de uma pessoa podem se espalhar por um espectro dividido em basicamente 4 níveis:

1. Desejos que são factíveis. Podem ser desafiadores, mas são factíveis, como são os objetivos SMART.

2. Desejos que até são factíveis, mas que são altamente improváveis. Por exemplo, desejos que dependem da pessoa ganhar na loteria.

3. Desejos que são humanamente possíveis, mas são impossíveis para a pessoa em particular, mesmo com todo dinheiro do mundo.

4. Desejos que são humanamente impossíveis para qualquer ser humano.


Quem busca praticar o pragmatismo, o realismo e o essencialismo concentra seu foco em desejos e fantasias que estão no primeiro nível.

Focar nos outros níveis leva ao sofrimento da reiterada frustração, podendo, inclusive, levar à depressão, ou à manutenção de uma depressão já estabelecida.


09/12/23

Por que não sou comunista


1. Não acredito na ideia de progresso que anima o iluminismo e esta derivação específica do iluminismo que é o comunismo.

2. Não compartilho da ontologia da natureza humana que o marxismo possui e que o próprio Dicionário do Pensamento Marxista confessa que é uma ontologia otimista. Novamente, um aspecto que o comunismo herdou do iluminismo e que eu renego.

3. Acredito que a humanidade estará extinta em menos de 100 anos, ao mesmo tempo em que não acredito que daria tempo para o processo civilizacional superar o capitalismo em menos de 100 anos. Em outras palavras, acredito naquilo que os comunistas tanto gostam de denunciar: o chamado "realismo capitalista". Realmente é muito mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Eu mesmo já fiz uma lista aqui (no dia 11/12/21) com mais de 35 caminhos para o fim do mundo ("Caminhos seculares para o fim do mundo"). Da forma como eu vejo, é como se a civilização e a própria espécie humanas fossem semelhantes a uma pessoa que está amadurecendo, mas que acaba morrendo de velhice antes de chegar à plenitude da maturidade, antes de resolver seus problemas: as contradições que animam a dialética histórica humana não se resolverão a tempo da morte da história humana acontecer por falta de substrato material. A minha visão é mais materialista do que a dos marxistas. O materialismo dos marxistas está focado por demais na sociedade, eles não percebem o quanto as próprias existências da sociedade e mesmo da espécie humana dependem de uma materialidade finita que está sendo diuturnamente dilapidada. Estão presos a um materialismo do século XIX e presos na crítica cultural, esquecendo que essa cultura depende de corpos, e que esses corpos dependem de uma série de recursos naturais que são finitos e que estão em rápido (rápido em termos geológicos) processo de indisponibilização. Não entendem nem querem entender de ecologia, biologia conservativa e ciências da Terra, pois são pessoas "de humanas". Estão mais interessados em discutir qualquer questão cultural do que se envolver nos estudos desses assuntos fora das humanidades. O máximo que fazem é anexar o tópico da sustentabilidade sem se aprofundar nele, criando, por exemplo, o ecossocialismo, ou fazendo profecias do tipo "Socialismo ou Extinção". Não, é extinção mesmo, com ou sem socialismo.

4. Os exemplos de socialismo real. Embora eu acredite que eles foram melhores que os capitalismos em alguns aspectos (inclusive no aspecto da sustentabilidade ambiental), convenhamos que estiveram longe de ser uma maravilha, longe de ser algo que faça o sacrifício pessoal por eles parecer valer a pena. E perderam a guerra contra o capitalismo. Se eram superiores, porque não venceram? O comportamento dos comunistas em relação a esses exemplos de socialismo real também é difícil de lidar: uns renegam dizendo que se tratam de capitalismo de Estado, enquanto outros insistem em dizer que lá tudo era (ou é) muito melhor do que no capitalismo. Seja como for, parece-me que não vale a pena lutar para cair num regime como esses que existiram ou que ainda existem. Parece-me um esforço que não entrega o que promete. Talvez porque nem seja possível entregar a promessa, pois se trata de uma utopia, incompatível com a natureza humana? E se a tentativa de produzir o comunismo já gerou esses modelos de sociedade uma vez, porque não geraria de novo numa nova tentativa? 

5. Por falar em natureza humana, esses marxistas, como pessoas "de humanas", têm enorme dificuldade em aceitar os fatos científicos sobre a natureza humana. Talvez porque, se aceitarem, vai ficar difícil sustentar o otimismo ontológico do qual depende a utopia que eles acreditam? Eu entendo que um exagero do biologismo foi usado no passado para defender ideologias eugênicas, e que ainda hoje em dia seja usado em ideologias burguesas, mas isso não significa que podemos simplesmente jogar fora a ontologia biológica. A verdade, para mim, é que a sociobiologia está mais epistemologicamente e ontologicamente correta do que o próprio marxismo.

6. O wishful thinking dos comunistas, que é o mesmo dos prosélitos de qualquer ideologia-utopia: ficam torcendo os dados para que corroborem suas crenças, tanto sobre o que o mundo é, quanto sobre o que ele deveria ser, quanto, ainda, sobre o que ele será.

7. Meu pragmatismo e meu essencialismo: busco economizar meus recursos escassos e alocá-los em atividades ligadas à minha saúde (física, mental e financeira), e não em intermináveis discussões sobre o que o mundo é, o que ele deveria ser e o que ele será.

8. Sou cético, sou um pessimista ontológico e um niilista passivo. Não tenho vocação nem para profeta nem para mártir. Mesmo que a humanidade durasse mais séculos ou milênios, acho que os cenários mais prováveis seriam os que ainda manteriam a dinâmica de explorados e exploradores, conforme descritos por muitas ficções científicas (por exemplo, Warhammer 40.000). O único otimismo que eu tenho é na gestão da minha própria vida, naquilo que está sob meu controle. Neste aspecto, sou um eudemonista, misturando aspectos do estoicismo, do cinismo, do epicurismo, do maquiavelismo, do desenvolvimento pessoal, do essencialismo, da psicologia positiva, etc. Para mim, o mundo seria um lugar melhor se todas essas pessoas (de todas as ideologias e religiões) que estão militando para mudar o mundo estivessem se esforçando para serem pessoas melhores, com mais saúde física e mental. Mas, em vez disso, elas preferem entrar em aventuras quixotescas para impor aos demais aquilo que elas acreditam que seria a salvação do mundo, o que, ironicamente, deixa o mundo ainda pior (e isto é um exemplo de iatrogenia).

9. Para mim, essas ideologias e utopias (não só o comunismo, mas as demais, tanto à direita quanto à esquerda, e inclusive as religiões) servem mais para cumprir um papel de muleta psicológica. Ajudam as pessoas a suportarem a vida, pois lhes permite sonhar que um dia as coisas serão melhores. Para mim serão piores e rumo à extinção. Eu busco focar não em sonhar com um mundo melhor, mas em mudar o que de fato está ao meu alcance de ser mudado na minha vida, dentro do sistema social como ele é e está. Não me atribuo um papel de trabalhar pela melhoria do mundo, pois viver a minha vida da melhor forma possível já é desafiador o suficiente. Diferentemente destas pessoas, eu não me atribuo um papel de transformador social, de propagador da minha boa nova. Sei que não adianta querer forçar. Posso até ajudar alguém que pedir, mas quase ninguém pede. Como o próprio Baltazar Gracián diz, "ainda que sejam raros os oráculos de sensatez, vivem ociosos, porque ninguém os consulta" (parágrafo 176 d'A Arte da Prudência). Para mim, o foco na saúde já basta como forma de resistência ao capitalismo tanto na esfera da produção quanto na esfera do consumo. Focar na própria saúde é algo muito mais concreto (e material) do que sonhar com um novo mundo. Cansei de ver gente de esquerda com a saúde em frangalhos e refém da indústria alimentar, da indústria farmacêutica e da indústria do entretenimento. Acredito que essas pessoas estariam melhor se focassem em cuidar mais das suas saúdes, em vez de militar por um mundo melhor. Mas não me atribuo um papel de instruí-las. As informações estão aí, disponíveis, mas essas pessoas não se interessam por elas; não sou eu que vou forçá-las a se interessarem.

11/12/23

Dória foi um visionário com aquele acinte da "farinata". Ele esteve décadas à frente do seu tempo. Um dia, essa comida liofilizada feita com alimentos próximos do vencimento será corriqueira no nosso dia-a-dia, junto com as farinhas de insetos. Os pobres e a classe média vão se empanturrar com essas rações humanas.


22/12/23

Comemos para subsidiar os processos alostáticos necessários para a autopoiese da sintropia dos sistemas complexos que são os nossos corpos. Incluindo-se nos corpos os cérebros e, por extensão, os epifenômenos dos cérebros conhecidos como mentes.

XLV

 20/05/23

Eu aceito tudo.

"Escolha suas batalhas". Eu escolho cuidar de mim, da minha saúde (física, mental e financeira). E só essa prioridade já consome mais recursos que eu tenho. Quanto ao futuro político do mundo e do Brasil, eu aceito tudo: do Ancapistão à ditadura do Partido Comunista Chinês, do Império Trans à Teocracia, do Evangelistão do Pó ao Socialismo Bolivariano, do Império Anglosionista à Quarta Teoria Política. Aceito tudo, adapto-me a tudo. Não tenho com o que me preocupar. Tudo é possível e todos têm razão.


01/06/23

A vida (tao): autopoiese (yang) da sintropia (yin) de sistemas proteicos complexos.


15/08/23

O custo da ignorância.

Quanto mais o mundo vai se fechando numa grande máquina burocrática cheia de regras e de golpistas em busca de trouxas para explorar, eu acredito que cada vez menos é verdade aquele chavão que diz que “a ignorância é uma benção”. De fato existe um tipo de conhecimento que atrapalha a vida, a respeito do qual é melhor ser ignorante, mas paga-se um alto preço pela ignorância a respeito de uma série cada vez maior de conhecimentos prático necessários para ter uma vida o menos ruim possível nesta distopia.


29/08/23

O problema não é a burrice e a ignorância, mas a arrogância. Se as pessoas tivessem a humildade de admitir sua não qualificação para decidir, e se deixassem a decisão para os especialistas de cada assunto, o mundo seria menos ruim do que é. Essa arrogância está dentro do que Greene chama de Lei da Grandiosidade (11a Lei da Natureza Humana), e está dentro da pressa de concluir que Cioran denuncia.


24/10/23

A vida é tão dura e limitada no espaço e no tempo. Precisamos despender um esforço enorme e contínuo para simplesmente termos bons resultados nas dimensões mais básicas das nossas vidas: termos saúde (mental, física e financeira), segurança, bons relacionamentos, conforto e dignidade. Se escolhemos ter filho(s), então, o esforço é ainda maior, pois temos que prover tudo isso para ele(s) e ainda temos a responsabilidade moral de educá-lo(s) para ter(em) condições de ser(em) a(s) melhor(es) versão/ões dele(s) mesmo(s).

Quanto mais escolhemos nos distrair com fantasias (entretenimentos, infotenimentos, turismo intelectual, dilentantismos, drogas químicas e semióticas, ideologias, utopias, doutrinas, esoterismos), mais dificultamos as nossas próprias vidas, pois estamos escolhendo desperdiçar os nossos recursos escassos (tempo, dinheiro, energia, foco, paciência, processamento cerebral, etc.) com atividades que não apenas não contribuem como até atrapalham essas dimensões mais básicas de nossas vidas.

E quanto pior estão essas dimensões mais básicas das nossas vidas, mais sedutoras nos soam essas fantasias, pois mais desagradável está a nossa vida de fato. Mas quanto mais fugimos da realidade pior ela fica, não apenas porque não estamos trabalhando o máximo possível para melhorá-la, mas também pelo puro e simples contraste dela com as fantasias: o mundo real e a nossa vida real ficam cada vez mais insuportáveis, e nos afundamos num processo suicídico, mesmo que se arraste por décadas.

São hábitos. Se focamos pragmaticamente na vida, adiando a gratificação, teremos melhores resultados nela, o que a tornará melhor. Se focamos irresponsavelmente nas fantasias, no prazer imediato oferecido pelos onipresentes vendedores capitalistas, estamos fortalecendo as fantasias em nossos cérebros e enfraquecendo a realidade, ficando, portanto, menos aptos a (sobre)vivermos nela.

Claro que a distração, a diversão e o ócio têm um papel na saúde mental, mas o semiocapitalismo os caricaturizou e os transformou em drogas ao ponto de que perdemos a noção do que seria moderação, assim como a indústria alimentar fez com o açúcar, com o sal e com a gordura. Como sempre no capitalismo, viramos mero instrumentos para a realização do lucro, consumidores para as mercadorias produzidas e que precisam ser vendidas e consumidas a todo custo, para fazer a máquina girar. A "era da informação" não poderia, sob o capitalismo, virar outra coisa que não a era das drogas informacionais: como os capitalistas, assim que tivessem as condições tecnológicas para fazê-lo, iriam se abster de explorar as fraquezas humanas em troca do lucro fácil? Não precisam de nenhuma conspiração diabólica e de longo prazo para os estimular, pois os lucros trimestrais são estímulos mais do que suficientes. Que culpa o capitalismo tem que os lucros são mais rápidos e fáceis explorando-se em massa os pontos fracos da natureza humana? Se os lucros fossem mais fáceis explorando-se em massa os pontos fortes, o capitalismo faria isso. Mas não são. Pensando em termos das neurociências, os pontos fracos estão associados ao sistema rápido (instintivo), enquanto os pontos fortes estão ligados ao sistema lento (racional). Explorar (instrumentalizar) o sistema rápido permite uma aceleração do ciclo de produção, venda e consumo das mercadorias, acelerando o ciclo de autovalorização do capital. Embora seja possível lucrar com o sistema lento  e o capitalismo lucra com ele , o volume e a velocidade são menores do que os que se consegue explorando o sistema rápido. Não é necessária nenhuma conspiração maligna para levar a isso, nenhum plano de extermínio em câmera lenta do gado humano ao longo de décadas ou séculos.

Decisões fáceis (dizer sim aos prazeres imediatos oferecidos pelos vendedores no capitalismo), vida difícil (corrosão suicida da saúde física, da saúde mental, da saúde financeira, da qualidade dos relacionamentos, da segurança, do conforto, da dignidade); decisões difíceis (dizer não às fantasias e focar pragmaticamente em aprimorar diuturnamente a própria vida), vida fácil, ou, ao menos, vida menos difícil (mais saúde física, mais saúde mental, mais saúde financeira, melhores relacionamentos, mais segurança, mais conforto, mais dignidade). 


26/10/23

No mundo atual, para tentar reduzir os danos que o trabalho assalariado causa à saúde é preciso ter uma vida estoica e espartana. Mas para isso é preciso dizer não aos sonhos de consumo da insiderness de classe média: as viagens, os carros, os imóveis, os jantares, os pets, os filhos... Para eliminar esses danos, só atingindo a liberdade financeira.

Mas esses insiders iludidos, aceitam, sem perceber, acabar com suas saúdes em busca de dinheiro para comprar ou alugar insígnias de status.


27/10/23

Para se dar bem na vida, não adianta ser apenas inteligente. É preciso saber aplicar a inteligência nos assuntos certos, ou seja, de forma eficaz. E para isso é preciso aplicar a inteligência ao próprio processo decisório tomado sobre onde aplicar a inteligência.

Como há muito mais conhecimento no mundo do que alguém, por mais inteligente que seja, consiga absorver, invariavelmente qualquer pessoa, mesmo se muito inteligente, vai ser especialista em alguns assuntos e nos demais será medíocre ou até abaixo da mediocridade.

O problema é que muita gente inteligente não aplica a inteligência para escolher de forma otimizada os assuntos nos quais aplicará a própria inteligência. Os assuntos são escolhidos por moda, por vaidade, por status, por pressão do grupo, por afinidades eletivas, pela influência de pessoas próximas, pela sedução dos vendedores onipresentes no capitalismo, etc. Aí essas pessoas inteligentes  que demonstram sua inteligência dominando os conhecimentos nos quais focaram a inteligência  acabam vivendo vidas erráticas e desastradas, pois não decidiram buscar uma sabedoria de vida, ou ao menos um pensamento gerencial (estratégico, pragmático) a respeito da própria vida. São pessoas inteligentes tomando decisões não inteligentes a respeito de aspectos cruciais das suas próprias vidas.

Isso é muito comum em insiders (a maioria das pessoas), que não ousam questionar as convenções sociais e aí se sacrificam nas muitas armadilhas da vida mainstream, e também é muito comum em autistas (muitos dos quais são insiders), cujos hiperfocos (geralmente formados na infância ou na adolescência) quase sempre são fúteis, inúteis e desconectados da cotidianidade da qual, na verdade, eles (autistas) querem até mesmo fugir. E, ainda, é muito comum nas gerações a partir da Y, afogadas num oceano sem fim de entretenimento.


Note que tudo o que foi escrito acima está dentro do que os coaches esotéricos descrevem criticamente como "pensamento de escassez". Eles defendem o oposto, o "pensamento da abundância" (baseado na infante e infame Lei da Atração). Além desse pensamento da abundância cumprir a 32a Lei do Poder ("Desperte a Fantasia das Pessoas"), ele, uma vez transformado em verdade na cabeça dos clientes desses coaches, cria a base para justificar os preços exorbitantes do cursos e produtos que os próprios coaches vendem para os clientes. De forma semelhante, pastores da teologia da prosperidade convencem seus rebanhos a entregarem vultosas quantidades de dinheiro (incluindo carros e imóveis) para "Deus", em troca da promessa de que quanto maior o sacrifício maior será a recompensa. São diferentes segmentações do Mercado da Picaretagem, o qual trabalha com a exploração do pensamento mágico.

sexta-feira, 12 de maio de 2023

XLIV

17/10/22

Fracasso voluntário

As pessoas escolhem o fracasso, e o fazem para não precisarem se esforçar e se arriscar tentando o sucesso. É mais fácil, mais cômodo, fracassar de uma vez do que se esforçar em busca de um sucesso que não é garantido.

Seria um exagero dizer que as pessoas se resignam ao fracasso que escolheram. Isso seria digno demais para o caráter doente da maioria. Ao invés da resignação, a maioria escolhe ruminar o ressentimento pelo resto da vida. O caráter doente da maioria leva a isso: essas pessoas não têm a grandeza nem do esforço e nem da resignação, preferem o comodismo imoral do ressentimento.

Eu gostaria aqui de ser generoso e colocar essas pessoas como meras vítimas do sistema social, mas isso seria injusto. O sistema social oferece inúmeros caminhos para o desenvolvimento pessoal, e todas as pessoas acabam conhecendo pelo menos alguns deles, e mesmo assim elas escolhem o comodismo de não seguir nenhum deles, de não se esforçar para melhorar. Como eu acho que já disse no capítulo 112 do Outsider à beira do abismo (acho que foi nesse capítulo, mas não tenho certeza), as pessoas são, simultaneamente, vítimas do sistema social (e do sistema natural, acrescento agora se não disse lá) e reprodutoras do sistema social (e do sistema natural).

Para não precisarem se engajar no esforço de um processo interminável de automelhoramento, as pessoas escolhem simplesmente jogar suas vidas fora. Para não pagar o ônus, desistem do bônus, restando-lhes ruminar o ressentimento.

Hipótese de trabalho: o mundo pode ser dividido em dois grupos: de um lado uma minoria que tem um compromisso diuturno com o automelhoramento como ser humano, e, do outro, a maioria que não têm esse compromisso (seja por covardia, por preguiça, por fraqueza, por estafa, por falta de recursos, seja em função da sístase). Essa maioria pode até ter uma melhoria como pessoa com a idade, fruto de uma espécie de aprendizagem por osmose, por repetição, não fruto de um esforço contínuo pelo automelhoramento.

Essas pessoas — que são a maioria dos humanos — têm um ódio à aprendizagem. Associam aprender com a educação formal, e essa com algo chato e descolado do resto da vida. Com essa mentalidade, criam a base para desperdiçar a busca pelo conhecimento já sistematizado pela sociedade, e muitas vezes disponível de graça na internet ou nas bibliotecas, ou quase de graça nos sebos. São pessoas perdidas na vida, turistas sem lugar no mundo, sempre correndo atrás de algum prazer imediato ou de tentar sair das enrascadas nas quais acabaram de enfiando em função da sua imprudência e da sua estupidez.

Quem quer ser fracassado, que siga o caminho sem mim. Eu não vou me prestar a isso. Se a pessoa quer ir para cima, conte comigo; se quer ir para baixo, arranje outra companhia. 

24/10/22

"Liberdade, Igualdade, Fraternidade", "Sejamos realistas: exijamos o impossível". Epítomes da aventura humana: tentar desesperadamente tornar o impossível realidade (em outras palavras: não aceitar o real). A natureza humana, assim como a própria natureza, gira em torno de aporias, de contradições insolúveis. Essa contradições são o motor do próprio movimento, como ensinou a dialética. O que Hegel e Marx não viram — ou melhor, se recusaram a ver — é o caráter de "soma zero" deste movimento, em outras palavras: a ausência de progresso. O progresso em certos pontos só se dá ao custo do regresso em outros, de tal forma que o somatório é nulo. Nada se cria, tudo as transforma...

15/02/23

Receita para relacionamentos disfuncionais:

Inautenticidade (não se responsabilizar por suas escolhas) + brigas por recursos + brigas de egos + comunicação violenta + barreiras à comunicação + ruídos de comunicação + punitivismo + culpabilizações + uso abusivo do princípio do terceiro excluído (pensamento dicotômico) + reducionismo ontológico + pouca capacidade de planejamento + aversão à aprendizagem + descompromisso com a automelhoria + infoxicacão + hedonismo + imediatismo + consumismo + desperdício conspícuo (distinção pelo desperdício de recursos) + descompromisso com a sabedoria + militâncias ideológicas (inclusive religiosas) + cansaço por excesso de trabalho + querer resolver todo tipo de incompatibilidade, em vez de aceitar conviver com algumas delas

29/04/23

Minha posição atual sobre a extinção humana. [de novo isso, zzzzz...]

Há uma probabilidade de 99% do último indivíduo da espécie Homo sapiens morrer entre 2070 e 2110, sem que haja a transição para o transhumanismo ou pós-humanismo. Ou seja, sem que surjam outras espécies a partir do Homo sapiens.

Diferentemente de figuras como Guy McPherson — que acreditam em um processo extremamente rápido da morte dos bilhões de humanos atualmente vivos (McPherson acredita que antes de 2030 já estaremos todos mortos) —, eu acredito que o definhar da espécie não será uma "morte súbita", mas sim se arrastará por décadas. De certa forma, o prognóstico do McPherson é até mais otimista do que o meu, pois uma morte rápida pode ser vista como preferível a uma morte lenta e dolorosa.

Acredito que entre 2040 e 2060 a população humana começará a cair em números absolutos, e que a cada ano haverá um aumento no número absoluto da queda. Acredito que veremos primeiro as populações atualmente pobres e miseráveis — bilhões de pessoas — morrerem, ao passo que veremos as classes médias caírem da pobreza, depois na miséria e depois na morte. Tudo isso acompanhado de um caos social infernal. Depois de mais de década desse processo, aí sim haveria o rompimento total das cadeias produtivas globais, ficando cada região entregue a si mesma. E aí mais umas décadas seriam necessárias para se chegar numa situação em que simplesmente a agricultura não funciona mais, tamanha a degradação das fronteiras planetárias. A partir daí, ainda haveria humanos em bunkers, os quais, acredito, poderão viver até algumas décadas nessa condição (o McPherson acha que em alguns meses já terão se matado uns aos outros ou morrido em função de radiações mortais vindas do caos da superfície), para daí, enfim, o último indivíduo da espécie morrer. 

Acredito que figuras como McPherson estão contaminadas por um wishful thinking que exagera na intensidade e na velocidade do processo de extinção humana, enquanto quase todo o resto da humanidade tem um wishful thinking no sentido oposto. Acredito que a minha posição corrige as distorções desses dois vieses (um no sentido de exagerar a situação, outro no sentido de subestimá-la).

Em resumo, os apocalípticos ambientais estão certos, mas exageram na velocidade e na intensidade da destruição que imaginam.

Já os transhumanistas e demais prometeicos tecnológicos erram ao superestimar a tecnologia e ao subestimar a gravidade da situação ambiental. Na cabeça deles, é como se magica e rapidamente tudo fosse ser resolvido pela tecnologia. Eu até acho que a tecnologia poderia resolver a situação, mas para isso precisaríamos de séculos, os quais não teremos. Acho que se a história humana nesse planeta fosse outra, e/ou se a geografia do planeta fosse outra (por exemplo, se houvesse um continente embaixo do gelo do Ártico), até poderíamos superar o Grande Filtro. Mas, nessa realidade concreta tal qual existe, não superaremos. Somos apenas um (mais um?) exemplo de fracasso, de civilização que não conseguiu ultrapassar o Grande Filtro.

02/05/23

[Autismo] Como tentar reduzir a incidência dos hiperfocos indesejados?

1. Considerar os hiperfocos indesejados como hábitos.

2. Identificar os estímulos desses hábitos.

3. Reduzir ou eliminar a exposição a esses estímulos.

4. Fortalecer a capacidade de adiar a gratificação (dizer não para o prazer imediato).

5. Aumentar a organização mental e o foco no essencial: simplificar a vida.

6. Diminuir a exposição às informações (ignorância seletiva, desinfoxicação) e disciplinar a relação com o entretenimento.

11/05/23

Em defesa da pornografia

Criticar a pornografia por não ser realista é equivalente a ver um filme da Marvel e reclamar da falta de realismo, ou equivalente a assistir às Olimpíadas e reclamar que as pessoas comuns não fazem o que aqueles atletas fazem, ou, ainda, equivalente a reclamar da falta de realismo diante de uma apresentação do Cirque du Soleil. Os atores pornográficos são atletas do sexo, além de serem... atores.

A fome pelo irreal e por ultrapassar os limites do possível contamina todas as áreas da cultura desde sempre. Somos fascinados por fenômenos de cauda (acontecimentos improváveis, cujas incidências estão nas caudas da curva de distribuição normal de probabilidades) também desde sempre. Mas a pornografia tem que ser realista!, bradam alguns mentecaptos. Ou talvez, pior, eles bradem que a pornografia não deveria existir!

Esse tipo de argumentação não difere muito dos argumentos usados pelos filósofos da Antiguidade e da Idade Média, que condenavam tudo o que, segundo o entendimento deles próprios, ia "contra a natureza".

No fim das contas, esse clamor específico por uma pornografia realista (ou mesmo pela extinção da pornografia, ou ao menos pela sua irrelevância) é um disfarce para o moralismo e expressão de um erro de avaliação. Quem sabe até expressão de um ressentimento. Se essas pessoas não sofrem com a irrealidade nas outras áreas da cultura mas sofrem com a irrealidade na pornografia, é porque não entenderam que a pornografia, assim como tantas obras culturais, não busca o realismo, mas sim busca, igualmente como tantas obras culturais, justamente o exagero, o limítrofe, o caudal, o espetacular, o extraordinário. E também não entendem que é justamente essa irrealidade que torna todas essas obras culturais atraentes. Se fosse para vermos representadas as nossas mediocridades (no sentido de normalidade estatística) e banalidades, não consumiríamos todo esses conteúdos culturais. Essas pessoas sofrem porque ao verem a pornografia elas querem viver as experiências ali retratadas. Se elas não quisessem, se elas entenderem e aceitarem que aquilo ali é tão irreal quanto um filme da Marvel, não iriam sofrer, e iriam, sem ressentimentos, se deleitar com o melhor do que a pornografia tem a fornecer. 

Perdidos neste universo desamparado, que bom que ao menos tivemos e ainda temos a pornografia!



sexta-feira, 12 de agosto de 2022

XLIII

 

03/06/22


Manda quem pode, obedece quem tem juízo e
não tem dinheiro para poder se dar ao luxo de dizer 'não'”.


11/06/22


Com o capitalismo, criamos um mostro. Não é o sistema que atende às necessidades das pessoas, mas as pesssoas que atendem às necessidades do sistema, do capital, da elite detentora do capital. E isso não é uma mera abstração, mas sim algo que se traduz literalmente nos corpos e mentes adoecidos das pessoas que pululam o globo.


09/08/22


Os humanos têm inteligência suficiente (exaptação negativa da lucidez) para entrarem numa crise existencial, mas não têm inteligência suficiente para sair dela. Logo, ela é incurável. A "solução" (impossível) poderia ser tanto retornar à aminalidade (algo na linha anarcoprimitivismo, e algo que Cioran tateia, por exemplo, no fim do texto "Urgência do pior"), quanto uma superação da condição humana, rumo ao super-homem ou ao transhumano, pós-humano. Acredito que todos esses sonhos de superação são ingênuos e estão contaminados por fantasias religiosas ou prometeicas. Logo, os humanos estão presos nessa condição, sem saída possível. Nietzsche e Kurzwei são utopistas ingênuos, vítimas da mitologia do Iluminismo.


12/08/22

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Automutagênese: Protocolo de Redução de Danos para o Proletário no Capitalismo Tardio (As Novas Tábuas da Lei)


I - O principal life hack para ter uma vantagem desleal no jogo da vida no capitalismo tardio: não procriar, não ter nenhum filho/a.

II - Essencialismo: focar nas saúdes (financeira, mental e física), no sucesso na divisão social do trabalho (ganhar o máximo possível trabalhando o mínimo possível), em relacionamentos de qualidade, em desenvolvimento pessoal, em resultados.

III - Pragmatismo: foco no que é prático, afastando-se de debates ideológicos, utópicos e dogmáticos, e afastando-se dos cultos a personalidades e a ideias. Foco em si e nas pessoas relevantes na sua vida, e não em causas, utopias, movimentos, ideologias, doutrinas, cultos, etc.

IV - Decisões qualificadas: conhecer a si mesmo e ao mundo, com foco na contextualização para a tomada qualificada de decisões.

V - Detox mental: Ignorância seletiva, fugir das drogas químicas e das semióticas que, onipresentes, intoxicam o cotidiano e exploram as fraquezas mentais da maioria para o lucro de uma minoria.

VI - Empatia pragmática. Sem vocação para herói ou mártir.

VII - Automutagênese: desenvolvimento contínuo e incremental de hábitos angulares de saúde e de alta performance.

VIII - Ócio criativo, prazer e diversão enquanto ferramentas de saúde e desenvolvimento da criatividade.

IX – O Belo: cultivo de altos valores estéticos, fugindo da vulgaridade e do grotesco que poluem a cotidianidade reificada.

X - Principais "ismos" com os quais manter relações: Essencialismo, Eudemonismo, Estoicismo, Epicurismo, Cinismo, Maquiavelismo, Hedonismo, Bon-Vivantismo, Antinatalismo Egoísta (Childfree), Pragmatismo, Ceticismo, Materialismo Ontológico (incluindo Marxismo enquanto ontologia do ser social), Niilismo Ativo, Existencialismo, Absurdismo, Realismo Radical, Apateísmo, Agnosticismo, Construtivismo, Agilismo, Iconoclastia. 


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quarta-feira, 27 de abril de 2022

XLII

 

29/03/22


A cegueira generalizada


É irrazoável esperar que pessoas sem letramento científico entendam e aceitem a realidade do aquecimento global, entendam e aceitam a realidade da evolução por seleção natural, entendam e aceitem os conhecimentos básicos de cosmologia, consigam evitar cair nas dezenas de pseudociências que pululam o cotidiano, etc.


Mas como ter "letramento científico"? São basicamente três caminhos: ou ter um bom ensino médio (a maioria não tem), ou concluir uma boa faculdade de alguma ciência natural (a maioria não chega a cursar), ou estudar metodologia científica e conhecimentos científicos por conta própria (nem que seja pelo estudo livros e vídeos de divulgação científica; mas a maioria das pessoas só estuda, mal e porcamente, algum conteúdo que seja útil para tentar ganhar dinheiro ou para tentar ganhar outra forma de poder sobre as demais pessoas).


Assim sendo, não é de surpreender a incultura científica generalizada. E é inútil tentar ensinar em poucos minutos de conversa, ou mesmo em algumas horas de conversa (se essas estivessem disponíveis, e em geral não estão), o que a pessoa não aprendeu na educação formal ou não buscou aprender pesquisando por conta própria.


Essa falta de letramento científico também ajuda a entender a cegueira generalizada a respeito dos fundamentos materiais da existência humana (e, portanto, a respeito da insustentabilidade no nosso estilo de vida). Se bem que essa cegueira atinge até os letrados cientificamente, embora seja mais fácil para eles perderem ela.


Os humanos (ao menos as culturas humanas hegemônicas) se perderam nos labirintos da "cultura", no domínio do simbólico, esquecendo da matéria; seu afã de se afastar da natureza foi tanto que eles ficaram cegos para as bases materiais da sua própria existência.

Mesmo os "materialistas históricos/dialéticos" se perderam totalmente na crítica cultural e na luta pela hegemonia (com vistas à sua utopia política pueril), e são cegos às bases materiais de nossa existência coletiva. E os religiosos em geral, então...; se praticamente todas as religiões, senão todas, concordam com uma ideia de essência humana imaterial (espiritual, anti-animal), que fundamentação ontológica elas teriam para lutar contra essa cegueira que está nos levando à extinção? Ao contrário, elas são praticamente a origem dessa cegueira... Se elas foram úteis para criar o fenômeno propriamente humano, também estão sendo úteis para levá-lo ao seu fim. 

A humanidade, para sobreviver, precisaria subitamente realizar um giro de 180° no caminho que vem seguindo, o que obviamente não acontecerá. E mesmo que acontecesse “nos 48 minutos do segundo tempo”, seria tarde demais, pois não dá (é fisicamente, materialmente, e tecnicamente impossível) para consertar em poucos anos ou décadas um estrago produzido cumulativamente ao longo de séculos ou mesmo milênios. Não existem milagres, nem almoço grátis.


Alguém pode objetar que eu, então, me acho o não cego numa terra de cegos? Que eu me arrogo a petulância de saber o que a maioria não sabe? Incluindo nessa maioria quase todas as pessoas que inclusive têm mais educação formal do que eu e que têm uma autêntica e farta produção intelectual e mesmo científica, isso? Sim, isso mesmo. Mas o curioso é que nenhum dos conhecimentos que eu possuo, inclusive todos os ligados ao fim do mundo via colapso ambiental (solenemente ignorado por quase todos os 8 bilhões de humanos de todas as culturas, graus de instrução e classes sociais), é “secreto”: eles estão ai para quem quiser encontrá-los. Ocorre que as pessoas simplesmente não querem encontrá-los; elas têm centenas, milhares, de outras prioridades. O que eu sei, eu sei por uma mera questão de ter priorizado essa busca, enquanto a maioria priorizou e prioriza outras coisas. As informações estão aí para quem quiser conhecê-las, são públicas. Mas quase ninguém quer saber. É uma autêntica vontade de ignorância. Tragicômico.



04/04/22


As principais necessidades humanas atendidas pelas religiões


1. Auxílio: Primeiro, um auxílio real (por meio dos serviços prestados a título de caridade e solidariedade pelos adeptos da religião, e pela rede de apoio criada por eles) e um auxílio imaginário (criado pelo comércio imaginário com os deuses) que tem um efeito de elevar a confiança e a motivação das pessoas, facilitando a adesão à vida e a submissão aos poderes estabelecidos.


2. Convivência: A religião oferece grupos de convivência, o que atende a necessidade humana atávica de interagir com outros humanos, formar laços. Remete à vida humana primitiva (e mesmo dos hominídeos e a maioria dos mamíferos), a qual ocorria em pequenos grupos: foram em pequenos grupos que os nossos genes sociais foram selecionados.


3. Familiaridade e segurança: uma vez as crenças religiosas implantadas nos cérebros em formação das crianças (ligando-se à base da formação dos seus modelos de mundo, ligando-se a experiências primordiais e a sentimentos atávicos), sair do mindset religioso torna-se fonte de insegurança: permanecer sob a religião é o caminho mais curto e seguro para o indivíduo fugir do medo focar em administrar a sua vida.


Esses três pontos acima são os motivos principais a atrair e manter os indivíduos sob a religião. Mas há ao menos mais dois, que são estatisticamente menos comuns:


4 Disciplina: A religião oferece um sistema de cresças que promovem o foco e a disciplina, a administração da própria vida (autocuidados) de forma a aumentar a homeostase com o resto da sociedade, e assim obter vantagens da divisão social do trabalho e do excedente econômico. Do ponto de vista da sociedade, a religião oferece um sistema teórico e prático de disciplinamento dos corpos e mentes. Mas a maioria das pessoas geralmente não vão atrás da religião pensado em ter isso, esse acaba sendo um benefício secundário (não imediato) para elas. Elas são disciplinas, em geral, contra a sua vontade imediata, mesmo que depois, disciplinadas, percebam a vantagem dessa disciplina.


5. Explicações ontológicas e axiológicas: A religião oferece um conjunto de respostas prontas para uma série de dúvidas ontológicas e axiológicas, o que facilita a vida da maioria das pessoas (que assim não precisa pensar sobre o assunto, basta aderir ao que a religião diz). E mesmo para aqueles que gostam de pensar, a religião oferece um labirinto sem fim de teologias e literaturas, que podem dar ao seu estudante a convicção de sabedoria, de verdade e de profundidade. Mas quando o motivo principal pelo qual alguém busca a religião é a questão da verdade, aí invariavelmente a pessoa acabará por abandonar a religião, pois ela (a religião) não se sustenta na psique de uma pessoa apenas por esse aspecto tão fragilizado em virtude da competição com tantas outras explicações disponíveis, ou mesmo da competição com o livre pensar.



12/04/22


Adultos infantilizados, crianças adultificadas


Freud alegou que a maioria dos adultos são simplesmente crianças grandes. Os supostos adultos (do ponto de vista jurídico e social são adultos, mas, na prática, não são muito menos infantis que as crianças) passam sua adulticidade revivendo os conflitos da infância, sem grandes progressos psicológicos ou morais.


Mas o que eu quero salientar aqui é um outro aspecto, que eu não sei se foi abordado por Freud: é a contradição que há entre os outsiders que atingem uma maturidade intrapessoal mas fracassam no jogo da vida (e por isso são tidos como infantis) e entre os insiders que têm sucesso nas métricas do jogo da vida (e que por isso são tidos como adultos), mas que não se diferem muito de crianças em termos intrapessoais (inclusive mantém intactas em suas mentes muitas das crenças falsas que a religião, a mídia e o senso comum lhe incutiram na infância).


Para a pessoa desconstruir o castelo de mentiras do senso comum, das ideologias hegemônicas e das baboseiras religiosas enfiadas em nossos cérebros desde a infância, é necessário um trabalho intelectual hercúleo, e, ainda, um longo e doloroso trabalho de autoconhecimento e de autocrítica. Ao empreender todo esses esforço, a pessoa assume um custo de oportunidade: ela foca menos em obter sucesso no “jogo da vida”, em ter sucesso no campo dos relacionamentos e no campo da produção econômica ("mercado de trabalho" e "empreendedorismo"). E, ao focar menos nesse jogo, é natural que ela tenha menos sucesso nele. Ao ter menos sucesso, ela será lida como uma pessoa fracassada, e mesmo será tida como infantil e imatura. Uma pessoa de quase 40 anos que não constituiu família e nem foi promovida em sua carreira várias vezes só pode ser infantil, pensam os insiders “adultos” (que são “adultos” porque casaram, têm dois filhos e foram promovidos em suas carreiras, embora ainda acreditem em papai Noel (Deus)). Às vezes uma pessoa de quase 40 anos sem filho e que não foi promovida em sua carreira (ou nem carreira tem) é infantil e imatura mesmo, mas nem sempre. Mas, como os insiders em geral nem sabem da existência dos outsiders, fica realmente difícil para eles tirarem uma conclusão diferente dessa...


Inversamente, o insider que consegue “ter sucesso” no “jogo da vida”, que casou, teve filhos, tem uma renda boa, uma carreira ascendente, etc., esse insider, dizia eu, precisou focar tanto nesse jogo que a sua mente é completamente acrítica e ingênua no que diz respeito à desconstrução do senso comum, das ideologias hegemônicas e dos infantilismos das religiões. Esse “adulto bem-sucedido” é, do ponto de vista ontológico e epistemológico, praticamente uma criança, vive num realismo ingênuo e acredita no papai Noel e em outras ilusões obviamente falsas. Se não fizer terapia (e às vezes mesmo tendo feito ela por anos), ou se não tiver ao menos tido uma boa infância e bons pais (o que é raro de se ter), ainda por cima provavelmente ele será altamente imaturo emocionalmente, mesmo que tenha “aprendido” muito criando seus filhos e progredindo em sua carreira. Mas, para o outsider que decifrou o enigma do mundo, que desceu até o fundo do abismo e voltou, esse insider “adulto” é só uma criança grande.



26/04/22


Os cinco motivadores para os que acreditam que estão lutando por um mundo melhor:


1 A busca genuína por diminuir o sofrimento alheio. 

Essa primeira está no domínio da generosidade. E quatro seguintes estão no domínio do egoísmo:


2 A pessoa ajuda sem querer nada material em troca e até sem querer status, mas acredita que Deus, ou "o universo", vai recompensá-la mais tarde. Ou mesmo espera que quem ela ajudou eventualmente retribua no futuro, numa espécie de toma lá, dá cá. Esse pensamento é muito difundido no campo da autoajuda e da espiritualidade: as pessoas são encorajadas a ajudar sem querer nada em troca, mas são também encorajadas a acreditar que serão recompensadas justamente por ajudar sem querer nada em troca... Uma série de histórias (supostos casos reais) são relatadas mostrando exemplos edificantes de pessoas que ajudaram sem pensar em recompensa e... foram recompensadas por sua generosidade. 


Nesse campo de uma recompensa potencial (ideal, imaginaria, virtual), há também as promessas de recompensa no pós-morte (seja ir para "o céu", seja reencarnar em situações mais favoráveis, etc.)


3 A busca por status: está no domínio do poder intersubjetivo: a pessoa ser reconhecida como tendo superioridade(s) em relação aos demais. Pode ser apenas superioridade moral (como no caso de um Chico Xavier, por exemplo), mas geralmente essa dita superioridade é remunerada com acesso a uma porção maior de consumo do produto econômico da sociedade, o que nos leva a ao quarto motivador. Mas o status tem valor por si próprio, independentemente de quão remunerado ele seja em termos de acesso ao consumo de valores de uso. O status é agradável ao ego, pois faz a autopoiese dele, a sua expansão. Ao se sentir superior em algo (ou em mais de uma área) em relação aos demais, e ao ter essa superioridade reconhecida por outros indivíduos, a pessoa pode se regozijar por estar acima dos demais. Ela pode, inclusive, se regozijar por acreditar, via efeito halo, que ela é simplesmente uma pessoa superior às demais: a superioridade numa área ou outra vira superioridade em geral. As pessoas religiosas que abdicam do acesso à riqueza material não raro não abdicam do reconhecimento alheio da sua superioridade moral; elas adoram ser vistas como um exemplo que os outros deveria seguir; ou seja, são superiores aos outros no campos da moral, da virtude e da espiritualidade; o mundo seria um paraíso se todos fossem como elas, ou ao menos tentassem ser.

Mesmo que elas acreditem que estão se libertando do ego, na verdade estão o alimentando, ainda mais com as ilusões de que têm contato com o transcendente e de que irão sobreviver e prosperar no mundo espiritual do pós-morte. Novamente, o caso de Chico Xavier é bem ilustrativo dessa falsa modéstia. 


4 Busca por riqueza material: está no domínio do poder objetivo: a pessoa com status em geral é remunerada com acesso a uma porção do produto econômico maior do que a porção que as pessoas com status menor do que o dela. E, assim, delineia-se uma estrutura social piramidal. Há exceções, em especial no caso em que a pessoa quer exibir uma superioridade moral pela via da renúncia aos prazeres do mundo (o que geralmente acontece no campo religioso). Apesar dessas exceções, a regra é que o status intersubjetivo seja acompanhado por um maior acesso ao consumo dos valores de uso (dos "bens", como chama a economia mainstream).


5. Quando o "melhorar o mundo" passa por se opor a um ou mais grupos de pessoas ou de instituições (e isso praticamente sempre acontece, pois os mocinhos precisam estar em luta heroica contra vilões), não raro esse desejo de suposta melhoria do mundo é alimentado por um desejo de vingança, o qual, por dia vez, é fruto do ressentimento, da inveja diante do sucesso alheio. Esse motivador também está ligado à autopoiese do ego.


A combinação dessas cinco  motivações não é fixa na vida de uma pessoa, ou de uma instituição. Diferentes pessoas, em diferentes momentos, serão motivadas por uma composição diferente desses cinco motivos.  A depender da personalidade (mais especificamente, do caráter) de cada um, um motivador terá mais peso do que outro. Pode até ser verdade que algumas pessoas (minoritárias) realmente são movidas apenas pelos dois primeiros motivos, enquanto outras (maquiavélicas profissionais e mesmo psicopatas) são movidas apenas pelo terceiro e pelo quarto e fingem serem motivadas pelos dois primeiros, mas a maioria parece ser motivada por uma confusa mistura dos cinco. E mesmo é provável que a maioria das pessoas nem saiba o que realmente a move. É supercomum que a pessoa ache que está sendo movida por motivos generosos enquanto nem percebe os motivos egoístas atuando em sua mente. Para perceber e aceitar a atuação desses motivos menos nobres, já é preciso uma dose se sinceridade que é inacessível à maioria. O autodesconhecimento atinge a maioria, mesmo porque o autoconhecimento é um trabalho longo e penoso, ao qual a maioria está longe de se dedicar e mesmo de ter condições de fazê-lo. E como as pessoas são educadas (com forte influência da moralidade cristã) a considerar apenas legítimas as motivações generosas, e como, ainda, são educadas a acreditar que toda motivação egoísta é digna de punição, elas acabam se esforçando para esconder dos outros, e mesmo de si próprias, as suas motivações egoístas.


Quanto à mudança da composição desses motivadores ao longo de uma jornada, o roteiro mais típico de acontecer é a motivação generosa ir enfraquecendo frente às outras três à medida que uma pessoa ou uma instituição envelhece e vai acumulando poder, patrimônio e responsabilidades: a pessoa pode começar motivada por ajudar aos outros, mas a experiência e as responsabilidades do poder vão corrompendo essa motivação original e fortalecendo as outras três.


É exagero e reducionismo dizer que quem se coloca na posição de lutar por um mundo melhor o está fazendo apenas para ter controle sobre os demais (poder) ou para receber recompensas ou para se vingar, mas também é reducionismo ingênuo acreditar que a pessoa é movida apenas por generosidade pura de interesses egoicos. 


27/04/22


Quase 200 vieses cognitivos:


https://pt.wikipedia.org/wiki/Vi%C3%A9s_cognitivo#/media/Ficheiro:Codex_Vi%C3%A9s_Cognitivos.jpg


Quais seriam a qualidade e a quantidade das crenças de alguém que genuinamente tentasse diuturnamente escapar a todos eles?